O filme ‘A Chuva do Diabo’ (The Devil’s Rain), lançado em 1975, acaba de ganhar um relançamento em 4K pela Severin Films, e a nova edição reacende o debate sobre o lugar da obra no panteão do terror. Apesar de nunca ter alcançado o status de clássico absoluto, o longa dirigido por Robert Fuest e co-escrito por Gabe Essoe (sim, o mesmo autor de guias de colecionismo de Tarzan) tem elementos que o tornam memorável – especialmente o final, uma verdadeira celebração dos efeitos práticos que, segundo o trailer original, seria “o final mais incrível e inesquecível de qualquer filme já feito”. Hipérbole? Talvez, mas a cena realmente gruda na memória.
A trama acompanha a família Preston, amaldiçoada há séculos pelo líder satânico Corbis, interpretado por Ernest Borgnine. Um ancestral dos Preston traiu Corbis e roubou o registro de seus seguidores, que agora existem como almas torturadas dentro de um receptáculo chamado Chuva do Diabo. Corbis pode extrair essas almas e implantá-las em corpos hospedeiros ou em efígies de cera, mas precisa do livro para completar seu pacto infernal. Quando a matriarca Emma (Ida Lupino) e o filho Mark (William Shatner) desaparecem, o irmão mais novo Dr. Tom Preston (Tom Skerritt), sua esposa com sensibilidade extra-sensorial Julie (Joan Prather) e o colega Dr. Sam Richards (Eddie Albert) partem para descobrir o que aconteceu e deter Corbis de uma vez por todas.
O filme abre com música dissonante, pinturas perturbadoras de Hieronymus Bosch e uma aparição de Woody Chambliss (de ‘Gárgulas’, 1972), mas logo perde parte dessa boa impressão ao tentar convencer o público de que Shatner, então com 44 anos, poderia ser filho de Lupino, de 57. A narrativa joga o espectador de cabeça em um emaranhado de informações, muitas vezes sem o contexto necessário – o que pode ser visto como um defeito, mas também confere uma melancolia satisfatória à experiência. Apesar de parecer um telefilme que só ocasionalmente ultrapassa os limites da TV, o longa conta com paisagens escuras e desoladas de grande beleza. Uma cidade fantasma do Velho Oeste, varrida pelo vento e habitada por capangas sem olhos vestidos de preto (numa clara referência a ‘The Omega Man’), é uma imagem impressionante, mesmo que um cardo rolando pareça um clichê exagerado.
Borgnine domina cada cena com uma ameaça palpável, e seus confrontos com Shatner e Albert têm a dinâmica de um vilão de James Bond. A trilha sonora de Al De Lory lembra o trabalho de Leonard Rosenman em ‘O Planeta dos Macacos: Debaixo do Planeta dos Macacos’, e há tentativas de alcançar ressonância temática, incluindo uma chuva literal caindo dos céus como um julgamento divino, à la ‘Os Caçadores da Arca Perdida’. Mas o verdadeiro destaque é o trabalho de maquiagem de Tom Burman e seu irmão Ellis Jr., desde a encarnação de Borgnine como um bode com chifres até a sequência climática de derretimento, com gosmas multicoloridas escorrendo dos olhos e de todas as outras partes dos cultistas. O visual sem olhos dos discípulos de Corbis sofre na era HD – os plugs pretos que cobrem os olhos dos atores ficam visíveis nesta transferência impressionante –, mas ainda assim é muito legal.
Falando em Shatner: o ator realmente modera seus excessos em um papel pequeno, que dura apenas o primeiro terço do filme e um pouco do final. Ele também faz um rascunho de seu famoso grito “Khannnnnn” de ‘Star Trek II’ com um “Corbissssss” similar, e repete um momento desconfortável de Chuck Heston sem camisa em ‘The Omega Man’. Muitos fãs de cultura pop sabem que um molde de vida do rosto de Shatner, feito para esta produção, foi obtido por Don Post para criar a máscara de Kirk em 1975; uma cópia dessa máscara foi comprada pela equipe de ‘Halloween’ e transformada no visual icônico de Michael Myers (Shatner contesta parte disso, mas não é exatamente uma fonte confiável). O que poucos apontam é que Shatner também origina a inclinação de cabeça de Myers! No final do filme, quando Shatner, sem olhos, olha interrogativamente para seu irmão, tentando reconhecê-lo através de uma névoa satânica, lá está o movimento característico do Shape, três anos antes de Nick Castle imortalizá-lo.
Uma das maiores oportunidades perdidas do filme, segundo a crítica, é o resultado de uma miopia misógina. Em vez de Skerritt, cujo personagem é bastante genérico e desinformado, a protagonista deveria ter sido Julie, a completa forasteira que aprenderia tudo junto com o público enquanto enfrenta seu destino. O flashback psíquico em sépia para 1680 também teria preparado o final de forma mais forte se Corbis a tivesse notado ali, enquanto ela assiste ao passado se desenrolando ao seu redor. Essa versão de ‘A Chuva do Diabo’ poderia ter subido de filme cult mediano para clássico do terror de todos os tempos, embora provavelmente exigisse uma atriz diferente de Prather no papel e um segundo ato com pelo menos um bom conjunto para nos levar ao final espetacular que quase compensa o resto do filme.
Apesar das falhas, o longa tem um apelo nostálgico para os fãs de terror setentista, com conexões que vão de ‘O Palácio Assombrado’ e ‘O Toque de Satanás’ a ‘A Noite do Demônio’, e até ‘O Retorno de Jedi’ e ‘A Hora do Pesadelo’. O crítico Arnold T. Blumberg, que assina a análise, afirma: “Gosto de ‘A Chuva do Diabo’ por todas as coisas que fez bem e pelo filme que ele queria ser. Há o suficiente desse filme para apreciar, mesmo que o resto seja frustrante.”
A edição 4K UHD/Blu-ray da Severin Films vem recheada de extras, a maioria trazida do lançamento em Blu-ray de 2017. Destaque para uma conversa com o maquiador Tom Burman, que confirma que o filme foi feito com dinheiro da máfia e descreve Shatner como alguém que “se ama mais do que você poderia amar a si mesmo”. O astro Tom Skerritt lamenta não terem feito uma comédia camp, enquanto líderes passados e presentes da Igreja de Satanás compartilham que o consultor técnico do filme, o fundador da igreja Anton LaVey, desenvolveu uma amizade muito próxima com o jovem John Travolta, que faz sua estreia no cinema aqui (a coisa fica mais sinistra quando se descobre que a co-estrela Prather apresentou Travolta à Dianética, então os alienígenas venceram o Diabo nessa). Há ainda galerias visuais, spots de rádio e TV, o trailer original e dois comentários em áudio – um com o diretor Robert Fuest (bastante informativo) e outro, adicionado em 2026, com o “historiador de cinema” Stephen R. Bissette, que já começa errando a pronúncia da produtora Bryanston. No fim, ‘A Chuva do Diabo’ continua sendo uma cápsula do tempo kitsch do paranormal dos anos 70, do ESP ao satanismo, passando por Shatner – e agora em 4K, para deleite dos colecionadores.
Leia mais aqui em inglês: https://www.ign.com/articles/the-devils-rain-review.
Fonte: IGN.
IGN Articles.
2026-07-04 12:00:00








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