A indústria de jogos enfrenta um momento de crise generalizada, com demissões em massa em grandes estúdios e dificuldades financeiras no setor de board games. No entanto, uma luz no fim do túnel vem de um lugar inesperado: a colaboração entre os mundos dos videogames e dos jogos de tabuleiro. Criadores de dois dos títulos mais influentes de suas respectivas áreas, XCOM e Gloomhaven, acreditam que essas parcerias podem ser a chave para a sobrevivência e a estabilidade em um mercado cada vez mais incerto.

A crise no setor de videogames é evidente. As demissões na Xbox, por exemplo, geraram novas ondas de cortes nos estúdios que a Microsoft havia adquirido. A Bungie, responsável por Destiny 2, reduziu significativamente seu quadro de funcionários logo após lançar a atualização final do jogo. Já a Epic Games, em março, demitiu 1.000 funcionários em resposta a uma queda no engajamento em Fortnite. O cenário não é mais animador no mercado de jogos de tabuleiro: a Paizo, editora de Pathfinder, precisou se reestruturar após a falência de sua distribuidora de livros, a Diamond Comics. A CMON também demitiu funcionários, citando o aumento das tarifas alfandegárias e as dificuldades para cumprir campanhas de financiamento coletivo. Projetos como The Monolith, da Plaid Hat, e a expansão Roots of Corruption, de Altered, foram cancelados mesmo após atingirem suas metas no crowdfunding, evidenciando os problemas de financiamento do setor.

Em meio a esse cenário adverso, a colaboração entre as duas indústrias surge como uma estratégia promissora. Para Julian Gollop, criador de XCOM, a interseção entre jogadores de videogame e de board games é significativa, e o público busca por propriedades intelectuais (IPs) consagradas. “O cruzamento entre jogadores de videogame e jogadores de tabuleiro é grande, e as pessoas estão procurando por IPs populares”, disse Gollop em entrevista virtual à Polygon. Essa visão se materializa em projetos como a versão digital de Gloomhaven, lançada em 2019 pela Flaming Fowl Studios, e a adaptação de Frosthaven, que está sendo desenvolvida pela Snapshot Games, estúdio fundado por Gollop em 2013. O RPG tático Frosthaven está atualmente em acesso antecipado e terá seu lançamento completo em 15 de outubro.

Para Isaac Childres, criador de Gloomhaven e Frosthaven, as parcerias digitais têm sido um alívio financeiro em tempos de tarifas adicionais. “Os royalties que estamos recebendo tanto de Gloomhaven Digital quanto de Frosthaven Digital são certamente bem-vindos neste momento em que temos que enfrentar essas tarifas extras”, afirmou Childres à Polygon. Ele destacou que essa receita tem ajudado a manter a empresa estável e confiante para avançar com outros produtos. Do lado dos estúdios de videogame, os board games oferecem uma base de fãs estabelecida, regras claras e arte pronta, o que reduz o risco do investimento. Hristo Petkov, diretor de jogo da adaptação de Frosthaven, explicou que isso proporciona “um pouco de estabilidade e previsibilidade em comparação a começar um projeto novo ou uma IP nova, que exigiria muito mais trabalho criativo”. Ele reconheceu que, embora todos queiram projetos criativos, a indústria não está estável no momento, então qualquer estabilidade é bem-vinda.

As adaptações também ocorrem no sentido inverso, com videogames clássicos ganhando versões em tabuleiro. A Modiphius está desenvolvendo um jogo de miniaturas tático baseado em XCOM, enquanto a Archon Studios produz um jogo de miniaturas para StarCraft. A Czech Games publicará um board game épico baseado em Kingdom Come: Deliverance, da Warhorse Studios. Já a Renegade Game Studios lançará em setembro um RPG de mesa ambientado no mundo de Exodus, um RPG da Archetype Entertainment que lembra Mass Effect e tem lançamento previsto para 2027. Petkov aponta que IPs mais antigas, como StarCraft e XCOM, têm um forte fator de nostalgia. “Pessoas na faixa dos 30 ou 40 anos têm dinheiro e tempo para uma experiência mais tranquila com família e amigos, para relembrar o tempo em que jogaram esse jogo há 20 anos. É uma boa oportunidade de marketing”, disse.

No entanto, Gollop vê a nostalgia como uma das razões para a crise na indústria de videogames. “As pessoas tendem a jogar jogos antigos que costumavam jogar há muito tempo, e não querem abrir mão deles por novos jogos”, afirmou. Ele destacou que as empresas estão competindo com um enorme catálogo de jogos que os jogadores querem continuar jogando, o que torna o cenário complicado. Para Childres, a diversificação é essencial. Sua empresa, Cephalofair Games, tem se concentrado em projetos menores desde que as novas tarifas atrapalharam a entrega de Gloomhaven: Second Edition. Uma expansão para o jogo solo Gloomhaven Buttons & Bugs será lançada em setembro, enquanto Mercenaries Wanted, um novo jogo de draft ambientado no mesmo universo, chega em dezembro. Ambos estão sendo apresentados na Gen Con, em Indianápolis. “Há uma questão com a economia atual e as tarifas se outro jogo do tamanho de Frosthaven é viável”, ponderou Childres. Ele defende a diversidade de linhas para que os jogadores escolham como querem jogar: campanhas menores ou experiências épicas.
A estabilidade proporcionada pelo licenciamento de seus jogos também permitiu que a Cephalofair evitasse as armadilhas do financiamento coletivo, onde muitos fabricantes usam novas campanhas para financiar projetos ainda não entregues. “É uma posição financeira bastante precária, e felizmente não é o nosso caso”, disse Childres. Ele revelou que a empresa está considerando se precisa de crowdfunding no futuro, já que tem uma base de fãs forte e consegue lançar jogos normalmente. Nem toda colaboração oferece esse nível de segurança, mas elas ajudam a dividir os custos de produção. A adaptação em board game de Cult of the Lamb já arrecadou US$ 1,8 milhão no Kickstarter, enquanto Starfinder: Afterlight, baseado no RPG de mesa da Paizo, entrou em acesso antecipado este ano após levantar US$ 828 mil na plataforma. Em um momento em que histórias de sucesso são raras, essas parcerias trazem uma centelha de esperança para a indústria.
Leia mais aqui em inglês: https://www.polygon.com/gloomhaven-xcom-creator-interview/.
Fonte: Polygon.
2026-08-01 12:00:00








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