A adaptação de Christopher Nolan para ‘Odisseia’, de Homero, tornou-se um sucesso de bilheteria e crítica, arrecadando US$ 264 milhões no fim de semana de estreia e alcançando 95% de aprovação no Rotten Tomatoes. No entanto, nem todos estão satisfeitos com as alterações feitas pelo diretor e roteirista no épico grego. Enquanto as discussões iniciais giravam em torno da escalação do elenco, do design das armaduras e da decisão de usar diálogos contemporâneos com sotaques americanos modernos, as críticas mais contundentes vêm de tradutores especializados na obra de Homero.
A tradutora Emily Wilson, professora de estudos clássicos da Universidade da Pensilvânia e responsável pela tradução de 2017 que inspirou Nolan, falou à Associated Press (via ABC News) sobre o filme. Embora recomende a experiência no cinema, Wilson apontou falhas significativas na adaptação. Ela questionou a ausência dos deuses Zeus e Poseidon na trama e classificou a mensagem antiguerra e anticovardia do filme como ‘incoerente’.
Wilson também criticou a redução do papel de Penélope, interpretada por Anne Hathaway, afirmando que a personagem foi tão diminuída que compromete ‘qualquer possibilidade de acreditar nesse casamento’. As cenas com Argos, o cão de Odisseu, também foram alvo de críticas, sendo descritas como ‘voltadas para o sentimentalismo moderno’. Na avaliação geral, Wilson considera que Nolan ‘tentou incluir de tudo, mas perdeu temas essenciais do poema’.
Em declarações anteriores ao The Telegraph, Wilson já havia manifestado reservas quanto à escolha de Matt Damon para viver Odisseu, embora tenha reconhecido que ‘sua atuação em O Talentoso Ripley foi o melhor aquecimento, mostrando que ele pode ser um trambiqueiro’. Seu ideal para o papel seria Samuel L. Jackson, ‘capaz de transmitir inteligência, astúcia, humor e comandar uma sala’. Wilson confirmou que, embora Nolan tenha se baseado em sua tradução, nunca a consultou diretamente.
O tradutor Daniel Mendelsohn também elogiou o filme, mas questionou a versão de Odisseu apresentada. Em artigo no The New York Review, Mendelsohn escreveu: ‘Nesta Odisseia, não há astúcia, humor ou charme enganoso. O herói não engana o Ciclope com seu brilhante trocadilho de ninguém; ele e seus homens apenas furam o olho do gigante e fogem como em uma corrida de gridiron’. Mendelsohn lamentou a ausência do diálogo espirituoso entre Odisseu e sua padroeira divina, Atena, que no filme aparece em apenas algumas cenas, interpretada por Zendaya, incentivando o herói em momentos de dúvida religiosa.
As críticas dos especialistas evidenciam um dilema comum em adaptações: é possível apreciar o filme como um blockbuster espetacular e emocionante, com mensagem própria, ao mesmo tempo que se reconhece que ele se afasta fundamentalmente da obra original. Nolan substitui algumas das pulsões do poema épico por um novo coração, mas, para os tradutores, isso não justifica a perda de elementos centrais da narrativa homérica.
Leia mais aqui em inglês: https://www.ign.com/articles/greek-translator-who-christopher-nolan-cited-as-inspiration-for-the-odyssey-recommends-people-see-the-film-but-has-a-few-issues-with-the-changes-he-made.
Fonte: IGN.
IGN Articles.
2026-07-20 09:28:00








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