Quando Chrissy decidiu, finalmente, abrir a caixa onde guardava o Nintendo Switch do namorado, Peyton, ela sabia que encontraria algo que evitava havia três anos: o save de The Legend of Zelda: Tears of the Kingdom, com a última partida registrada cinco dias antes da morte dele. O console estava em uma caixa, junto com roupas, bugigangas e controles rosa e verde. Por muito tempo, Chrissy não conseguia nem olhar para aquele material. Mas, depois de se mudar para outro estado e começar a faculdade de direito, ela decidiu que era hora de encarar o que ficou para trás — e, de certa forma, terminar o que Peyton não pôde concluir.

A história de Chrissy e Peyton começou na faculdade, durante uma aula. Quando o professor pediu que cada aluno dissesse o nome e o filme favorito, Peyton citou um drama biográfico japonês pouco conhecido. Chrissy, curiosa para ver quem tinha uma resposta tão pretensiosa, virou-se e o viu. Achou-o bonito e, rapidamente, bolou um plano para se tornarem amigos. Duas semanas depois, já estavam namorando. Alguns amigos, ao saberem do romance, disseram que não acreditavam que eles ainda não fossem um casal.
Peyton apresentou a Chrissy um mundo de interesses. Ele trabalhava como operador de brinquedos em um parque temático e mantinha uma planilha com todas as montanhas-russas que já havia andado. Também era apaixonado por videogames. Chrissy, que desde o ensino fundamental jogava The Sims 4, não se considerava uma gamer de verdade. Peyton, porém, sabia que ela só não tinha encontrado os jogos certos. Não demorou muito para que ele a convencesse a plantar no Stardew Valley e a fazer tarefas para os moradores de Animal Crossing: New Horizons.

Juntos, eles jogaram muitos títulos, alguns em parceria, outros separados. Com Tears of the Kingdom, mesmo sendo um jogo single-player, eles encontraram uma forma de jogar em equipe: Peyton era ótimo em explorar Hyrule e enfrentar monstros, enquanto Chrissy tinha habilidade para resolver os quebra-cabeças. Quando Peyton travava tentando salvar um Korok, ela dava uma dica. Em outras ocasiões, ela simplesmente gostava de vê-lo descobrir os santuários sozinho. Eu estava assistindo a uma mente brilhante em ação, com lugar na primeira fila, contou Chrissy ao Polygon, por e-mail.

Após a morte de Peyton, Chrissy ficou com os restos digitais das aventuras dele. Tentou jogar alguns desses jogos novamente, mas do seu jeito. Roller Coaster Tycoon, que ela jogava desde o ensino fundamental, antes mesmo de conhecer Peyton, tornou-se impossível de separar da memória dele. Quando ele morreu tão jovem, parecia que nossas vidas não estavam completas… ainda havia mais a realizar, além do nosso relacionamento, disse ela. Ao revisitar Animal Crossing, Chrissy encontrou uma carta antiga de Peyton: Querida chrissy, bazingabazingabazingabazingabazingabazingabazingabazinga, De peyt. Ela admite que era uma bobagem, mas a fez chorar, porque conseguia ouvi-lo dizendo aquilo e rindo sozinho antes de enviar. Era um absurdo, mas também era a prova de que ele existiu.
Por anos, a maior parte daquilo ficou intocado. Foi só quando Chrissy se mudou para o outro lado do país que ela se viu novamente remexendo nas coisas de Peyton. Na primeira vez, ela tinha apenas 22 anos e não sabia lidar com os sentimentos. Agora, aos 25, estudante de direito, ela passou a enxergar os jogos dele como uma oportunidade. Na primavera de 2026, Chrissy começou um novo save em Tears of the Kingdom. Quero ver o que ele viu, disse. Resolver os quebra-cabeças que ele resolveu e encontrar a diversão que ele encontrou no jogo. O plano era terminar a campanha que Peyton deixou para trás, mas ela sabia que o jogo era difícil. Antes de encarar o que Peyton deixou, ela queria ter certeza de que sabia o que estava fazendo.

Desde então, Chrissy já percorreu a Ilha do Céu, Goron City e a Cidade de Gerudo. Enfrentou Colgera e Sludge, ajudou a Cidade de Gerudo com sua eleição, levou bronca em Kakiriko e foi banida para as profundezas. Quando encontra dificuldades, ela fica imaginando o que Peyton faria. Tem certeza de que muitos lugares que a fizeram sofrer seriam fáceis para ele. Ele era bom em combate, diz. Ela foge dos Lynels e consulta inúmeros guias antes de progredir. Queria que ele estivesse aqui para me ajudar, ou pelo menos torcer por mim, desabafa. Odeio as batalhas e queria poder entregar meu controle para ele fazer por mim.

Apesar de Chrissy minimizar suas próprias habilidades, ela já avançou mais do que Peyton. Descobriu mais partes do mapa e derrotou mais chefes. Poderia enfrentar Ganondorf se quisesse, mas ainda não. Antes de ir mais longe, ela quer zerar The Legend of Zelda: Breath of the Wild. Quer entender melhor a história de Tears of the Kingdom e aprofundar sua apreciação por um jogo que o namorado amava.
Acho que jogar o save dele não é só uma forma de lembrar de um pedacinho dele, mas também uma maneira simbólica de seguir em frente… terminar o jogo dele seria como fechar mais um capítulo das nossas vidas, reflete Chrissy. Algo para olhar para trás como uma conquista da qual nós dois participamos. Ela sabe que isso pode levar centenas de horas, mas não se importa. É um tempo que ela dedicaria ao relacionamento, se ainda pudesse. Zelda esperou anos para Link encontrá-la, lembra Chrissy.
Leia mais aqui em inglês: https://www.polygon.com/zelda-totk-botw-peyton-chrissy-save-file-beat-game-nintendo-switch/.
Fonte: Polygon.
2026-08-09 13:15:00








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