A terceira temporada de Mushoku Tensei: Jobless Reincarnation estreou sem perder o fôlego — e sem abandonar as controvérsias que tornam a série tão difícil de recomendar quanto difícil de ignorar. O primeiro episódio já abre com uma cena que resume o incômodo: Eris, uma das coprotagonistas, relembra que ela e Rudeus — seu primo de segundo grau e protagonista reencarnado — fizeram sexo quando ambos tinham 15 anos. Para piorar, Rudeus mantém a mente de um homem de 30 anos de sua vida anterior. Logo depois, Eris parte em uma jornada com sua mestra Ghislaine, uma mulher da espécie bestial cujo visual e roupas parecem saídos dos sonhos molhados de garotos adolescentes obcecados por fantasia. Cenas assim tornam quase impossível recomendar o anime para qualquer pessoa. Ainda assim, o crítico Francesco Cacciatore, da Polygon, afirma que teria dificuldade em não incluir a série entre seus três animes de fantasia favoritos de todos os tempos — não apenas de isekai. Esse é o dilema de Mushoku Tensei: apesar de todas as polêmicas, a qualidade é inegável.

Baseada na série de light novels escrita por Rifujin na Magonote e ilustrada por Shirotaka, a animação produzida pelo Studio Bind acompanha um japonês de 34 anos, desempregado e recluso (NEET), que morre e reencarna em um mundo de fantasia como Rudeus Greyrat, filho de dois ex-aventureiros. Diferente da maioria dos isekai, Rudeus mantém as memórias da vida anterior, mas elas não lhe concedem vantagens ou “habilidades trapaceiras” — a não ser que sua consciência precoce o leva a estudar magia desde criança. Na verdade, sua existência miserável anterior serve como um lembrete constante e doloroso dos erros que ele quer evitar agora que ganhou uma segunda chance.
Os episódios iniciais da terceira temporada não focam em Rudeus. Eles se concentram inteiramente em Eris, retomando sua história de onde parou no fim da primeira temporada. Após o desastre do teletransporte, Eris abandona Rudeus logo após a primeira noite juntos. Ela carrega sentimentos de inadequação depois do terrível encontro com o Deus Dragão Orsted, que quase matou Rudeus. Eris quer treinar para ficar mais forte e matar Orsted, considerado a criatura mais perigosa do mundo. Para isso, viaja com Ghislaine até o dojo do mestre dela, o Deus Espada Gal Farion. Mas nada é fácil para os personagens de Mushoku Tensei. A atitude feroz de Eris lhe rende o apelido de “Cão Louco”, e ela passa anos treinando os fundamentos da esgrima apenas para alcançar o estado de espírito necessário para aprender técnicas avançadas. Ela treina com diferentes mestres e, com muitas dificuldades, aproxima-se de alguns colegas, tudo para diminuir o abismo impossível entre ela e Orsted.

O texto original especula sobre o que acontecerá quando Eris descobrir que sua partida repentina deixou Rudeus deprimido e sofrendo de disfunção erétil por anos. Ou, pior ainda, quando ela souber que o pequeno Rudy cresceu e agora tem não uma, mas duas esposas. Sim, a poligamia existe nesta série, assim como a escravidão — que Rudeus encontra e mal comenta.
Tanto os personagens quanto o mundo de Mushoku Tensei são profundamente falhos, o que dá origem a muitos elementos controversos. A série não se esquiva deles, apresentando tudo da forma mais crua possível. O que faz Mushoku Tensei se destacar é justamente a crueza de seu ponto de vista. Como o autor afirmou em uma entrevista de 2021 ao Anime News Network, Rudeus não foi criado para ser um cara legal ou um modelo a ser seguido: “Por ser um personagem controverso, sua montanha de arrependimentos torna o ato de refazer a vida mais significativo.” O problema, para alguns, é que esse processo não é rápido. Elementos da existência anterior de Rudeus persistem em sua segunda vida por muito tempo, gerando momentos controversos que afastaram muitos fãs. Essa é uma grande diferença em relação à maioria dos isekai, onde a vida pregressa do protagonista geralmente é mal mencionada. Não há nada de errado com isso: o crítico afirma que gosta genuinamente de assistir a séries como Reencarnado como Slime ou Overlord, onde quase não aprendemos nada sobre os personagens principais antes da reencarnação. Mas são um tipo diferente de entretenimento: divertido, leve, ótimo para relaxar depois de um longo dia de trabalho.

Mushoku Tensei é uma abordagem visceral da premissa isekai. As duas vidas de Rudeus estão em diálogo constante, e o resultado é negativo tantas vezes quanto positivo. Essa abordagem se estende à maioria dos personagens. Eris não precisava abandonar Rudeus sem explicação. Ela é tão autocentrada quanto ele era em sua primeira vida e, como resultado, a pessoa que ela mais ama sofreu por anos. Eris pode estar em seu “arco de treinamento” na terceira temporada, mas a progressão de personagens em Mushoku Tensei nunca é sobre ficar mais forte ou desenvolver novos poderes. É sobre se tornar mais humano — para desgosto de alguns espectadores, isso nem sempre se concretiza.
O crítico não nega que os aspectos perturbadores da série dificultam a visualização às vezes. Mas não parece que eles existem apenas para satisfazer fantasias perversas do autor ou do público. É uma decisão criativa não se esquivar dos aspectos mais sujos e perturbadores da vida, o que permite que a narrativa e os personagens de Mushoku Tensei funcionem tão bem. Até agora, a terceira temporada parece não ser exceção.
Leia mais aqui em inglês: https://www.polygon.com/mushoku-tensei-jobless-reincarnation-season-3-episode-1-review/.
Fonte: Polygon.
2026-07-08 17:00:00








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