Crítica: ‘A Boca do Diabo’ usa amizade tóxica para dar mais mordida que tubarão em filme da Prime Video

O que acontece quando uma amizade entre uma introvertida e uma extrovertida que se autointitula “CEO da Diversão” se torna tão sufocante quanto um ataque de tubarão? Essa é a premissa de “A Boca do Diabo” (The Devil’s Mouth), novo filme da Prime Video que chega ao streaming nesta sexta-feira (14). Longe de ser mais um longa genérico de tubarão, a produção dirigida por Jeff Wadlow (de “Jogo do Medo”) aposta em uma dinâmica de relacionamento tóxico para sustentar o suspense, com resultados surpreendentemente eficazes.

A trama acompanha Sara (Kathryn Newton) e Max (Lana Condor), duas amigas que embarcam em uma viagem dos sonhos para a Tailândia após se formarem na faculdade. Elas estão acompanhadas de James, namorado de Max, e de outro casal, Greg e Adrienne. Sara, que perdeu o pai recentemente e quase abandonou os estudos por depressão, vê na exploração de um sistema de cavernas subaquáticas — o mesmo que seu falecido pai considerava transformador — uma chance de encerrar um capítulo difícil. Max, por sua vez, quer transformar a viagem em uma grande festa, mesmo que isso signifique ignorar as necessidades da amiga.

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Fonte da imagem: Polygon

O roteiro, escrito por Aja Gabel e Myung Joh Wesner (que integraram a prestigiada Black List de 2019 com o título original “Apex”), foi refinado para explorar as motivações das protagonistas. No material original, as duas eram rivais presas em um triângulo amoroso; agora, a tensão vem do desequilíbrio de poder na amizade. Sara ama Max por tê-la ajudado a superar o luto, mas também parece ressentir o controle que a amiga exerce sobre sua vida. Enquanto Sara está pronta para seguir em frente, Max ainda age como se precisasse salvá-la — e faz questão de que tudo gire em torno de si.

Condor entrega uma Max autoritária, egoísta e muitas vezes insuportável, mas nunca a ponto de tornar a devoção de Sara inacreditável. Ela parece alguém que você já conheceu na vida real. Já Newton oferece uma atuação mais contida no início, interpretando uma jovem tímida e deslocada enquanto os dois casais trocam carícias e bebem em um iate. Mas é quando o perigo surge que Sara revela sua verdadeira força: enquanto todos entram em pânico, ela é a única que mantém a calma.

O perigo chega na forma de um tubarão-cabeça-chata (ou tubarão-burro) que, após uma tempestade, é arrastado para dentro das cavernas de água doce. Como um dos personagens explica nervosamente, essa espécie é capaz de sobreviver em água doce, o que dá ao filme um verniz de plausibilidade científica. A partir daí, Wadlow faz o que sabe de melhor: criar tensão em espaços confinados. Diferente da maioria dos filmes de tubarão, que se passam em mar aberto com o predador visível a quilômetros de distância, aqui o animal desaparece por minutos e ataca de surpresa, jogando as vítimas contra as paredes de calcário.

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Images: Amazon Prime StudiosFonte da imagem: Polygon

Uma das sacadas mais inteligentes do longa é a forma como torna o labirinto de cavernas compreensível para o espectador. Quando o grupo chega ao local, Max insiste em pegar a rota vermelha (avançada) em vez da verde (fácil), e a câmera sobrepõe um mapa do sistema à medida que os personagens se movem, permitindo que o público sempre saiba onde eles estão. É uma solução simples que evita a confusão típica de cenários subterrâneos.

O filme também se beneficia da ausência de mitologias complicadas — um ponto fraco recorrente na carreira de Wadlow, cujos filmes anteriores, como “Jogo do Medo” e “A Noite do Jogo”, muitas vezes sucumbiam a explicações rebuscadas. Aqui, a ameaça é direta: água escura, cavernas labirínticas e um tubarão faminto. O diretor mostra que, quando foca no básico, consegue entregar um terror eficiente.

No fim, “A Boca do Diabo” é mais do que um simples filme de tubarão. Ele usa a amizade tóxica entre Sara e Max como uma metáfora para o perigo real que elas enfrentam: às vezes, relacionamentos sufocantes podem ser tão assustadores quanto um predador à espreita. E, em ambos os casos, a melhor saída é se afastar o máximo possível. O filme já está disponível no catálogo da Prime Video.

Leia mais aqui em inglês: https://www.polygon.com/devils-mouth-movie-review-amazon-shark-horror/.

Fonte: Polygon.

2026-07-29 04:00:00

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