Quem foi assistir a ‘Odisseia’, de Christopher Nolan, pode ter se surpreendido com a rapidez com que o episódio das sereias é resolvido na tela. Afinal, as sereias estão entre os elementos mais famosos da obra de Homero, ao lado do ciclope. Mas, ao contrário do que muitos podem pensar, o diretor não cortou nem subestimou a cena: no texto original, o encontro com as sereias ocupa apenas três parágrafos.
Antes de ver o filme, o autor do artigo admite que sua compreensão da Odisseia era vaga e fortemente influenciada pelo filme dos irmãos Coen, ‘E aí, meu irmão, cadê você?’. Mas, ao assistir à produção de Nolan, notou que a sequência das sereias durava apenas alguns minutos. Isso o levou a questionar se o diretor havia suprimido algo da história original.

No longa, o profeta Tirésias (James Remar) alerta Odisseu (Matt Damon) sobre as sereias. Ele revela que, ao navegar perto da ilha delas, os homens são atraídos pelo canto belo e condenados à morte. Odisseu então decide colocar cera nos ouvidos de todos os seus marinheiros, mas quer ouvir o canto. Por isso, ordena que o amarrem ao mastro do navio e que, não importa o quanto ele implore ou se debata, ninguém o solte.
Assim, os homens remam em direção às sereias, retratadas como belas mulheres de vestidos esvoaçantes, sentadas sobre rochas na beira da ilha, na companhia de focas. Enquanto os remadores avançam, Odisseu ouve o canto e começa a gritar e se contorcer de dor, desesperado para ser libertado. Um dos tripulantes chega a tirar a cera dos ouvidos e pula no mar, desaparecendo para sempre. Os demais passam incólumes, e Odisseu se torna o primeiro homem a ouvir o canto das sereias e sobreviver.

Toda essa sequência ocupa poucos minutos na tela, e Nolan logo parte para o próximo monstro. Mas, ao consultar a tradução online da Odisseia disponível no site Poetry in Translation, o autor descobriu que o capítulo das sereias tem exatamente três parágrafos. No poema original, não há sequer o episódio do homem que sucumbe à tentação: os marinheiros simplesmente passam remando, soltam Odisseu depois e seguem viagem.
Na obra de Homero, o canto das sereias é assim: ‘Famoso Odisseu, grande glória dos aqueus, aproxima-te e faz teu navio parar, para ouvires nossas vozes. Nenhum homem passa por esta ilha em seu navio escuro sem ouvir o som doce como mel de nossos lábios. Ele se deleita e segue seu caminho mais sábio. Sabemos todo o sofrimento que os argivos e troianos suportaram, por vontade dos deuses, nas vastas planícies de Troia. Sabemos tudo o que acontece na terra fértil’.

A razão pela qual o episódio das sereias é tão conhecido não está na sua extensão, mas na sua universalidade. O canto das sereias é uma metáfora para a tentação — geralmente associada à tentação sexual, mas, no texto original, as sereias também conhecem o futuro, então Odisseu luta para resistir ao conhecimento que elas oferecem. Seja qual for a forma da tentação, o sentimento é universal e permaneceu assim ao longo dos séculos desde que Homero escreveu a Odisseia.
Portanto, Christopher Nolan não subestimou as sereias. Ele apenas seguiu fielmente a fonte, mostrando que, às vezes, o que parece um detalhe menor na tela é, na verdade, um dos momentos mais poderosos da mitologia grega.
Leia mais aqui em inglês: https://www.polygon.com/did-christopher-nolan-undercut-the-sirens-in-the-odyssey/.
Fonte: Polygon.
2026-07-18 18:00:00








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