O filme de ficção científica mais importante do século está prestes a deixar a Netflix

A inteligência artificial já foi assunto exclusivo da ficção científica. Desde os anos 1960, o tema gerou obras memoráveis, como o maligno HAL de 2001: Uma Odisseia no Espaço e os replicantes que despertam piedade em Blade Runner. Esses filmes continuam clássicos, mas vivemos agora uma era em que a IA deixou de ser uma promessa distante e se tornou parte do cotidiano. As opiniões sobre a tecnologia variam, mas uma coisa é certa: o debate atual é bem menos empolgante do que a ficção prometia. No entanto, um filme lançado há mais de uma década conseguiu prever o rumo da tecnologia e da cultura melhor do que quase qualquer outro, servindo como ponte perfeita entre o passado e o futuro da ficção científica sobre IA. O longa está disponível na Netflix, mas por poucos dias: sai do catálogo em 1º de agosto.

Há doze anos, Alex Garland lançou um de seus filmes mais instigantes. Ex Machina marcou sua estreia na direção, depois de escrever roteiros como Extermínio e Sunshine, e segue sendo um dos trabalhos mais afiados de sua carreira. A obra levanta questões desconfortáveis sobre a humanidade e apresenta um dos retratos mais verdadeiros sobre os homens. Mesmo sem o brilho da ficção científica, Ex Machina resiste ao tempo porque, além de explorar temas como humanoides e tecnologia, é um filme sobre homens e a forma como enxergam as mulheres.

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Fonte da imagem: Polygon

A trama acompanha Caleb (Domhnall Gleeson), um engenheiro de 26 anos que vence uma loteria no trabalho e ganha o direito de passar uma temporada na casa de seu chefe visionário. Logo nos primeiros minutos, Caleb chega a um complexo remoto e isolado, uma mistura de bunker com palácio tecnológico brutalista. Lá, encontra Nathan (Oscar Isaac), criador da Blue Book, empresa que lembra Google e Facebook. Caleb admira Nathan, mas os dois são opostos: Caleb é tímido e reservado; Nathan é arrogante, alcoólatra e compensa os excessos com treinos exaustivos no dia seguinte.

Caleb descobre que há um propósito para a visita. Após assinar um acordo de confidencialidade restritivo, fica sabendo que foi levado para testar a eficácia de um robô humanoide chamado Ava (Alicia Vikander, em sua melhor atuação). O teste é uma espécie de teste de Turing adaptado: verificar se a IA de Ava é avançada o suficiente para enganar humanos e fazê-los acreditar que ela tem consciência. Se Ava passar, viverá; se falhar, seu código será desmontado e incorporado à próxima criação de Nathan.

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Garland constrói a história com calma, desenvolvendo a dinâmica entre os três personagens principais. O roteiro é dividido conforme as sessões entre Ava e Caleb, mostrando a progressão lenta do relacionamento, que vai de estranhos a um tipo de cortejo, tudo sob o olhar vigilante de Nathan. As partes de entrevista são um deleite para fãs de ficção científica, remetendo a momentos de Blade Runner em que humanos se deparam com uma versão de si mesmos que reconhecem, mas que parece estranha. Ava consegue ler as emoções de Caleb e influenciar seu comportamento de acordo com suas necessidades.

Além da compreensão sobre-humana dos humanos, Vikander interpreta Ava como uma tela em branco na qual Caleb projeta suas emoções, encontrando afinidade nesse reflexo de sua própria consciência. Mesmo que ela não tivesse a aparência de uma mulher linda e frágil, Nathan é um personagem tão repulsivo para Caleb que é impossível não torcer pela robô.

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No ato final, Ex Machina faz o que essas histórias fazem de melhor. Conforme a linha entre IA e humanidade se desfaz, os personagens são lançados no caos, questionando sua própria agência. O mais interessante é que o filme se torna uma exploração dos homens e seus desejos, que podem cegá-los para perigos que vêm em embalagens bonitas. Por mais nojo que Caleb sinta de Nathan e de sua visão perturbadora das mulheres, da perspectiva do público ele não é muito melhor. Durante as sessões com Ava, ele oscila entre vê-la como criança ou vítima, cego pela solidão e pelo desejo.

Em um mundo repleto de IA, é revigorante revisitar histórias que permitem ser filosóficos sobre agência — perguntando o que acontece quando homens criam tecnologias que lhes dão poder sobre as mulheres. Garland incentiva o espectador a torcer pela heroína de IA, mas ela nunca é realmente acessível. Tanto Caleb quanto o público estendem um privilégio que só humanos poderiam: humanizá-la. Projetamos nossos sentimentos e desejos em Ava, pensando nela como uma variação de pessoa. É uma mensagem potente para se ter em mente num mundo onde chatbots de IA confundem a linha entre tecnologia, amizade e até romance.

Afinal, quando Ava consegue sua fuga tão duramente conquistada, ela guarda seus pensamentos para si. No final do filme, ela é tão incognoscível quanto no início. Ex Machina está disponível na Netflix até 1º de agosto.

Leia mais aqui em inglês: https://www.polygon.com/ex-machina-ai-thriller-is-also-secretly-a-battle-of-the-sexes/.

Fonte: Polygon.

2026-07-30 12:00:00

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