O Studio Ghibli, ao longo de suas quatro décadas de história, colecionou poucas decepções críticas genuínas. Conhecido por obras-primas da animação, chamar um de seus filmes de ‘ruim’ quase soa como uma contradição. No entanto, há um título que carrega esse estigma de forma mais persistente: ‘Contos de Terramar’ (Tales from Earthsea), que completa 20 anos em 2026 e ganha uma reexibição nos cinemas da América do Norte em agosto.
O longa marca a estreia de Goro Miyazaki na direção de um longa-metragem — filho do cofundador do estúdio, Hayao Miyazaki. A adaptação dos romances de Ursula K. Le Guin, que compõem a aclamada série ‘Terramar’, foi uma tarefa ambiciosa para qualquer cineasta, especialmente para alguém em seu primeiro projeto. Goro assumiu o posto após atuar como consultor, e o resultado é uma aventura fantástica que mistura elementos de vários livros, em vez de adaptar um único volume.

A reestreia, marcada para os dias 8 e 10 de agosto, faz parte das comemorações do lançamento original de 2006. A oportunidade permite que o público revisite um dos filmes mais divisivos do Ghibli — que nunca teve o mesmo prestígio de clássicos como ‘A Viagem de Chihiro’, ‘Princesa Mononoke’ ou ‘O Castelo Animado’. Na época, críticos apontaram ritmo irregular, narrativa fragmentada e dificuldade em equilibrar as ideias extraídas de múltiplos romances. Fãs que esperavam outro clássico instantâneo encontraram uma história que parecia dividida entre honrar o rico universo de Le Guin e construir sua própria identidade.
O filme, por exemplo, pega emprestada a jornada central de ‘O Mais Longínquo Litoral’ e entrelaça personagens e temas de ‘Tehanu’, comprimindo tramas que nunca foram concebidas para se desenrolar juntas. O resultado é uma narrativa que muitas vezes apressa o desenvolvimento dos personagens e não dá espaço suficiente para suas ideias filosóficas. Além disso, Hayao Miyazaki teria expressado reservas sobre o filho dirigir o projeto, antes de se afastar para deixá-lo trabalhar por conta própria. Essa dinâmica pai-filho tornou-se parte inevitável da conversa em torno do filme, por vezes ofuscando a obra em si.

Nas listas de classificação do catálogo do Ghibli, ‘Contos de Terramar’ quase sempre aparece no fim. Para um estúdio com uma das filmografias mais fortes da animação, ser chamado de ‘pior filme do Ghibli’ não é o rótulo mais severo, mas é um estigma que o longa carrega há duas décadas — mesmo após lançamentos medianos como ‘Da Colina Kokuriko’ e ‘A Aranha e a Bruxa’ (Earwig and the Witch), ambos também dirigidos por Goro.
No entanto, o tempo tratou ‘Contos de Terramar’ com mais brandura do que sua recepção inicial sugeria. Muitos espectadores que ainda o consideram um dos trabalhos menores do estúdio reconhecem o artesanato notável em cena. Os cenários pintados continuam de tirar o fôlego, refletindo a sensibilidade visual que garantiu a Goro o cargo de diretor, a partir de seus storyboards. A trilha sonora de Joe Hisaishi empresta peso emocional, com cordas orquestrais, melodias suaves de piano e fanfarras de metais. Várias sequências capturam a melancolia silenciosa que sempre definiu os melhores filmes de fantasia do Ghibli. Os temas de mortalidade, identidade e a relação da humanidade com a natureza se encaixam confortavelmente ao lado das ideias exploradas no restante da obra do estúdio, mesmo que a história nunca se una completamente.

Uma geração mais jovem de fãs de anime descobriu o filme via streaming no HBO Max, onde as expectativas são diferentes das de 2006. Livre do fardo impossível de suceder ‘O Castelo Animado’ e corresponder ao nome Ghibli em tempo real, ‘Contos de Terramar’ é cada vez mais visto não como um desastre, mas como uma fantasia ambiciosa, embora profundamente imperfeita, de um dos maiores estúdios de animação do planeta. Isso não faz dele uma obra-prima escondida. As críticas que o saudaram há 20 anos continuam válidas, e ele ainda é um dos filmes menos bem-sucedidos do Ghibli. Mas aniversários não servem apenas para celebrar a perfeição — são também uma chance de revisitar trabalhos que revelam as dores de crescimento e os riscos criativos de um estúdio.
Goro Miyazaki sabe bem disso. Seu filme posterior, ‘A Aranha e a Bruxa’, usou animação 3D pela primeira vez na história do Ghibli, mas é frequentemente considerado ainda pior que ‘Contos de Terramar’. Apesar do apelo limitado, o próprio Hayao Miyazaki considera o filme digno de elogios. Em um blog de Goro datado de 3 de julho de 2006, ele relata uma mensagem sincera do pai durante a festa de lançamento: ‘Foi feito com honestidade, então foi bom.’ Goro admite que as palavras do pai o levaram às lágrimas.
Para fãs antigos do Ghibli, o retorno aos cinemas é uma oportunidade de ver um dos filmes mais debatidos do estúdio na telona. Para os novatos, é um lembrete de que mesmo os cineastas mais celebrados da animação ocasionalmente tropeçam. Vinte anos depois, ‘Contos de Terramar’ nos lembra que, quando o filme mais fraco de um estúdio ainda é tão visualmente encantador e apaixonadamente debatido, então você construiu um dos maiores legados da animação. O filme será reexibido nos cinemas em 8 e 10 de agosto e está disponível para streaming no HBO Max.
Leia mais aqui em inglês: https://www.polygon.com/studio-ghibli-tales-from-earthsea-returns-to-theaters/.
Fonte: Polygon.
2026-07-30 01:00:00








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