Nolan reescreve o final de Odisseia e transforma épico homérico em crítica à guerra e ao colapso das civilizações

Christopher Nolan entrega um final surpreendente para sua adaptação de ‘Odisseia’, que chega aos cinemas em 2026. O diretor não apenas reimagina o clássico de Homero, como também usa os momentos finais para expor a tese central do filme: a guerra destrói tudo e a humanidade está fadada a repetir os mesmos erros. A mensagem, segundo a análise do longa, é clara: guerra é uma merda.

O desfecho do filme difere radicalmente do poema original. Enquanto Homero encerra a história com o reencontro de Odisseu com seu pai, Laerte, e a restauração do herói como rei de Ítaca, Nolan opta por um caminho mais sombrio. Na versão do cineasta, Odisseu (Matt Damon) retorna disfarçado de mendigo, seguindo o conselho do espectro de Agamêmnon (Benny Safdie), que foi assassinado pela própria esposa, Clitemnestra (Lupita Nyong’o), ao voltar da Guerra de Troia. O conselho se mostra útil: a corte de Odisseu foi tomada por pretendentes que disputam a mão de Penélope (Anne Hathaway).

Odisseu se reencontra com o velho aliado Eumeu (John Leguizamo), que está cego e não o reconhece, mas ajuda o herói a descobrir que seu filho Telêmaco (Tom Holland) corre perigo por causa de um complô liderado pelo covarde Antínoo (Robert Pattinson). Odisseu salva Telêmaco, que percebe que o mendigo é seu pai, e ambos mantêm o segredo para que Odisseu possa observar os pretendentes durante um jantar. No fim da noite, Penélope chama o estranho para conversar, e é nesse diálogo — talvez a cena mais crucial do filme — que Odisseu revela a verdade sobre a Guerra de Troia.

Odisseu confessa a Penélope que o Cavalo de Troia foi um ardil que violou a ‘Lei de Zeus’, que proíbe virar as costas a um estranho, pois ele pode ser um deus disfarçado. Ao usar essa lei para enganar os troianos, Odisseu quebrou o equilíbrio que sustenta a sociedade. Ele descreve como ‘dez anos de raiva’ transbordaram pelos muros de Troia, resultando na decapitação de uma sacerdotisa de Atena (Zendaya) diante de seus olhos. O exército não apenas desrespeitou os deuses, mas destruiu a própria civilização. Odisseu, após anos de negação, finalmente aceita seu papel nesse ciclo de destruição.

A conversa leva Penélope a propor um desafio aos pretendentes: quem conseguir esticar o arco de Odisseu e atirar uma flecha através de uma fileira de machados ganharia sua mão. Apenas Odisseu é capaz de realizar a façanha. Ao completar o desafio, ele se revela, e os pretendentes atacam. Odisseu e Telêmaco os enfrentam, matando muitos, incluindo Antínoo, enquanto outros se rendem e saúdam o rei. Odisseu é ferido, mas os ferimentos não são fatais. Ele então cumpre uma promessa feita a Sinon (Elliot Page), um guerreiro que suas ações enviaram ao Hades: navegar para o Oeste em homenagem aos soldados caídos. Telêmaco é nomeado rei de Ítaca, e o filme termina com Odisseu e Penélope em um barco, perseguindo o sol poente.

Nolan usa esse final para reposicionar a narrativa: a geração mais velha, imersa em guerras intermináveis, falhou, e cabe à nova geração tentar não repetir os mesmos erros. As falas finais de Penélope e Odisseu sugerem que, embora a palavra escrita possa ser ignorada, as histórias que ensinam a navegar na escuridão sobreviverão em canções — ou, no caso, em filmes. O diretor, assim, explica por que está adaptando ‘Odisseia’ agora: porque a humanidade não está mais aprendendo as lições que Homero deixou há milênios, e essas histórias precisam sobreviver como um lembrete de que aqueles que ignoram a história estão condenados a repeti-la.

A diferença em relação ao original de Homero é marcante. No poema, Odisseu é triunfante e retorna ao trono ao lado de Penélope, um final feliz independentemente das ações do herói. Nolan, ao eliminar Laerte e focar em Odisseu e Telêmaco, transforma a história em uma reflexão sobre o fracasso das gerações anteriores e a esperança — ou a falta dela — de que os jovens possam fazer diferente. O filme, assim, se alinha a temas recorrentes na obra de Nolan, como a escalada da violência em ‘Batman: O Cavaleiro das Trevas’ e a ruptura causada pela bomba atômica em ‘Oppenheimer’. Em ‘Odisseia’, ele olha para milhares de anos no passado para mostrar que a autodestruição humana não é novidade.

Leia mais aqui em inglês: https://www.ign.com/articles/the-odyssey-explaining-the-last-scene-of-christopher-nolans-new-epic.

Fonte: IGN.

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2026-07-16 23:00:00

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