A estreia de ‘Supergirl’ nos cinemas dos Estados Unidos, com apenas US$ 38 milhões no fim de semana de abertura, reacendeu o debate sobre a chamada ‘fadiga de super-herói’. No entanto, uma análise dos lançamentos do gênero desde a pandemia mostra que o conceito não passa de um bode expiatório usado para culpar o público pelo fracasso de filmes ruins.

O termo ‘fadiga de super-herói’ ganhou força a partir de 2022, segundo dados do Google Trends. Naquele ano, os cinco grandes filmes do gênero foram ‘Doutor Estranho no Multiverso da Loucura’, ‘Pantera Negra: Wakanda Para Sempre’, ‘The Batman’, ‘Thor: Amor e Trovão’ e ‘Adão Negro’. Três deles — ‘Multiverso da Loucura’, ‘Amor e Trovão’ e ‘Adão Negro’ — tiveram avaliações medianas ou negativas e foram rotulados como vítimas da fadiga. Já ‘Wakanda Para Sempre’ e ‘The Batman’ foram vistos como ‘a resposta à fadiga’. Contudo, ‘Multiverso da Loucura’ arrecadou mais que os outros quatro e, mesmo com críticas mistas, superou o primeiro ‘Doutor Estranho’ em bilheteria, mesmo ajustando pela inflação. A classificação, portanto, parece refletir mais a opinião dos críticos do que o cansaço real do público.

Em 2023, a situação se repetiu. ‘Guardiões da Galáxia Vol. 3’, ‘Homem-Aranha: Através do Aranhaverso’, ‘Homem-Formiga e a Vespa: Quantumania’, ‘Aquaman e o Reino Perdido’ e ‘As Marvels’ foram os destaques. Com exceção de ‘Aranhaverso’, todos foram acusados de sofrer de fadiga de super-herói. No entanto, ‘Guardiões 3’ faturou mais que ‘Aranhaverso’ e teve desempenho praticamente idêntico ao de ‘Guardiões 2’, com leve queda ajustada pela inflação, mas insuficiente para justificar o rótulo. ‘Quantumania’ e ‘Reino Perdido’ são amplamente considerados filmes ruins, o que explica seu baixo rendimento. Novamente, a fadiga é usada para culpar a audiência, enquanto o verdadeiro problema é a qualidade das produções.
‘As Marvels’ é um caso à parte. Embora não tenha sido tão mal recebido pela crítica quanto ‘Quantumania’ e ‘Reino Perdido’, o filme enfrentou outros obstáculos. A campanha de ódio misógino contra Brie Larson, protagonista do longa, afetou o público — algo que também pode ter prejudicado ‘Supergirl’, com comentários sobre a aparência de Milly Alcock. Além disso, duas das três protagonistas de ‘As Marvels’ vieram de séries do Disney+, criando a impressão de que seria necessário ‘lição de casa’ para entender o filme. Após ‘Vingadores: Ultimato’, a Marvel expandiu sua produção para alimentar o streaming, e o próprio Kevin Feige admitiu que isso desviou a atenção dos cinemas, resultando em uma abordagem de ‘quantidade sobre qualidade’. O índice de acertos da Marvel caiu de cerca de 90% para 50/50, gerando cautela no público, mas isso não é o mesmo que fadiga generalizada.

Comparando com a concorrência, a DC teve uma média de 50/50 nos anos 2010, com fracassos e sucessos, assim como a Sony — que teve desempenho ainda pior. Na época, ninguém culpava a fadiga de super-herói; todos entendiam que o público simplesmente não pagava para ver filmes medíocres. O problema atual é que a Marvel, que dominou o mercado, tornou-se menos confiável. Se existe alguma fadiga, é uma cautela maior em relação ao selo Marvel, que já não representa a mesma garantia de qualidade.

Outro ponto importante é que a suposta fadiga não explica a queda geral na frequência aos cinemas desde a pandemia. Entre 2009 e 2019, Hollywood arrecadou mais de US$ 10 bilhões por ano, algo que não se repetiu após 2020. Mas isso pode estar mudando: segundo a CNBC, 2026 pode ser o primeiro ano desde 2019 a atingir a marca dos US$ 10 bilhões.

Os dois maiores filmes de super-herói de 2025, ‘Superman’ (US$ 618 milhões) e ‘Quarteto Fantástico: Primeiros Passos’ (US$ 521 milhões), tiveram boas críticas, mas suas bilheterias ficaram abaixo do auge do final dos anos 2010. Novamente, a fadiga foi citada, ignorando o peso que ambas as franquias carregam: ‘Superman’ ainda sofre com uma década de filmes ruins da DC, e ‘Quarteto Fantástico’ enfrenta o fracasso de duas tentativas anteriores e os problemas recentes de qualidade da Marvel. Se a fadiga fosse real, afetaria todos os filmes do gênero, independentemente da qualidade. Exceções como ‘Pantera Negra: Wakanda Para Sempre’, ‘The Batman’ e, especialmente, ‘Deadpool & Wolverine’ (US$ 1,3 bilhão em 2024) mostram que o público ainda comparece quando o filme é bom. ‘Homem-Aranha: Novo Dia’ tem previsão de arrecadar mais de US$ 200 milhões no fim de semana de estreia, contrariando a ideia de que as pessoas não se interessam mais por super-heróis.
A conclusão é clara: estúdios precisam fazer bons filmes de super-herói, e o público virá em massa, como nos anos 2010. Culpar a fadiga de super-herói pelo fracasso de produções ruins é apenas uma forma de responsabilizar a audiência pelos erros e cálculos equivocados dos executivos de Hollywood.
Leia mais aqui em inglês: https://www.polygon.com/superhero-fatigue-real-or-fake-marvel-dc/.
Fonte: Polygon.
2026-07-05 13:00:00








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