Lançada há quase três décadas, Buffy the Vampire Slayer ajudou a consolidar uma fórmula que se tornaria onipresente na televisão: uma adolescente comum, uma escola de ensino médio, interesses amorosos vampirescos, um grupo de heróis em expansão e grandes vilões com planos mirabolantes. Criada por Joss Whedon e estrelada por Sarah Michelle Gellar, a série acompanhava Buffy Summers, a Escolhida, enquanto ela protegia a cidade de Sunnydale de vampiros e monstros, sem deixar de lado a lição de casa e a relação com a mãe. Ao longo de sete temporadas, o programa nunca teve medo de ousar, o que rendeu episódios memoráveis, mas também reações divididas entre os fãs. Com o benefício do tempo, alguns desses capítulos mais controversos revelaram-se à frente de seu tempo. A seguir, uma análise de seis episódios que, apesar da recepção inicial conturbada, envelheceram muito bem.

O primeiro deles é “Dead Man’s Party”, segundo episódio da terceira temporada. Após deixar Sunnydale no final da segunda temporada, Buffy retorna para casa e descobre que sua mãe e seus amigos ainda não a perdoaram por tê-los abandonado. O episódio permanece divisivo até hoje: muitos espectadores se identificam com Buffy e consideram as reações de seus amigos e de sua mãe irritantes e egoístas. No entanto, essa reação visceral é justamente o que mostra a eficácia do episódio. A narrativa coloca o público tão alinhado com a protagonista que é difícil enxergar o ponto de vista das pessoas ao seu redor, mas os sentimentos delas são válidos. Enquanto Buffy estava fora, coube aos amigos manter a cidade segura, mesmo sem superpoderes. Sua mãe, Joyce, interpretada por Kristine Sutherland, tinha motivos para ficar chateada, já que a filha passou meses fora sem dar notícias. O episódio eleva as apostas emocionais e mostra como esses relacionamentos são reais e por que eles funcionam tão bem.

Em seguida, “Hush”, décimo episódio da quarta temporada, é um marco não apenas na série, mas na história da televisão. Nele, Buffy e a Scooby Gang enfrentam os Cavalheiros, um grupo de demônios que chega a Sunnydale e rouba a voz dos habitantes, resultando em um trecho de 27 minutos sem nenhum diálogo. A escolha criativa era um temor para Whedon na época. Amy Pascale, autora de Joss Whedon: The Biography, escreveu: “Para Joss, essa era uma das coisas mais assustadoras que ele poderia escrever. Tirar uma forma de comunicação que muitas vezes usamos mal e que consideramos garantida, e explorar como é fácil cair no isolamento sem ela.” O risco valeu a pena, e o episódio se tornou um dos maiores trunfos criativos da série.

Outro episódio que merece destaque é “This Year’s Girl”, da quarta temporada. Faith Lehane, interpretada por Eliza Dushku, é uma das personagens mais marcantes de Buffy, mesmo aparecendo em apenas 20 dos 144 episódios. Depois de sua virada maligna na terceira temporada, que termina com Buffy a colocando em coma, Faith acorda e busca vingança. Na época, o episódio foi considerado confuso, especialmente por usar sonhos para refletir o estado de espírito da personagem. No entanto, essa aposta criativa se mostrou acertada, trazendo uma narrativa que não se esperava ver no canal The WB e plantando as sementes para a introdução de Dawn, irmã mais nova de Buffy, interpretada por Michelle Trachtenberg, uma das reviravoltas mais notórias da série.

“Normal Again”, da sexta temporada, é um dos episódios mais instigantes da série, capaz de provocar uma crise existencial e fazer o espectador repensar toda a trama sob uma ótica distorcida. O Trio, os vilões principais da sexta temporada, faz Buffy acreditar que sua vida como a Caçadora é uma fantasia. Durante todo o episódio, ela fica presa em uma instituição psiquiátrica. Na época, os telespectadores acharam o episódio difícil de assistir, em uma temporada que já era repleta de momentos deprimentes. Além disso, o episódio deu origem à teoria de que Buffy talvez sempre tenha estado em um hospital psiquiátrico.

A sexta temporada foi difícil, não por falta de qualidade narrativa, mas por explorar os desejos e sentimentos mais sombrios dos personagens. “Seeing Red”, o décimo nono episódio, é um dos mais infames da televisão, contendo alguns dos momentos mais baixos para os protagonistas. Spike, interpretado por James Marsters, tenta estuprar Buffy em uma cena que muitos consideraram uma traição ao personagem e ao relacionamento deles. Além disso, Tara, interpretada por Amber Benson, é assassinada logo após aparecer pela primeira vez na sequência de abertura, tornando-se um dos exemplos mais citados do tropo “Bury Your Gays”. As críticas ao episódio são válidas, mas a escolha de lembrar que, por mais charmoso que Spike tenha se tornado, ele ainda é um vampiro sem alma é admirável. E, apesar do que a morte de Tara representa para o tropo, a cena, devastadora em sua quietude, continua sendo um dos momentos mais trágicos da série e prepara perfeitamente a virada vilanesca de Willow, interpretada por Alyson Hannigan, no final da sexta temporada.

Por fim, “Empty Places”, da sétima temporada, é possivelmente um dos episódios mais tristes de Buffy. Ele prepara o terreno para o arco final da série. Depois de tudo que Buffy fez por seus amigos, salvando o mundo inúmeras vezes e a cada um deles individualmente, a série faz o impensável: os amigos se voltam contra ela, consideram-na inadequada para liderá-los e a expulsam de sua própria casa. A cena é enraivecedora e, sinceramente, parece injusta, mas talvez seja exatamente essa a intenção. Diante do fim do mundo, os amigos de Buffy se voltam uns contra os outros, revelando o pior de si mesmos. Narrativamente, era um bom caminho para o arco final, deixando Buffy superar as adversidades para salvar o mundo mais uma vez. Buffy the Vampire Slayer está disponível para streaming no Hulu.

Leia mais aqui em inglês: https://www.polygon.com/buffy-the-vampire-slayer-controversial-episodes/.
Fonte: Polygon.
2026-08-13 19:00:00








Deixe um comentário