O novo filme da franquia Silent Hill, intitulado Return to Silent Hill, estreou recentemente no Hulu e já alcançou o primeiro lugar entre os filmes mais assistidos da plataforma nos Estados Unidos. No entanto, a recepção crítica tem sido dura: a produção, dirigida por Christophe Gans – mesmo diretor do primeiro filme da série, lançado há 20 anos – é descrita como um “desastre agonizante” que falha em capturar a essência do jogo que adapta, Silent Hill 2, considerado um dos maiores títulos da história dos videogames.
O longa acompanha James Sunderland (Jeremy Irvine), um homem atormentado que retorna à cidade resort amaldiçoada de Silent Hill após receber uma mensagem de sua esposa supostamente falecida, Mary (Hannah Emily Anderson). A premissa segue a estrutura básica do game, mas, segundo a crítica, as escolhas criativas de Gans se afastam cada vez mais do material original, comprometendo a narrativa psicológica que tornou Silent Hill 2 um marco.
Logo na abertura, o filme apresenta um James Sunderland fumando um baseado pré-enrolado e quase batendo o carro em um caminhão. A caracterização do protagonista é apontada como uma das maiores falhas: no jogo, James é um homem introspectivo e atormentado pela culpa; no filme, ele é retratado como um artista autodestrutivo que abusa de álcool e maconha. Mary, por sua vez, ganha um histórico ligado a um culto – elemento que parece importado de outra franquia e que enfraquece o drama emocional original.

O tratamento dado aos personagens secundários também é criticado. Eddie (Pearse Egan) desaparece após uma única cena, perdendo todo o peso temático que tinha no jogo como um dos “perdidos” que James encontra. Laura (Evie Templeton), que no game original é uma criança inocente imune aos monstros da cidade – justamente por não carregar culpa –, é reduzida a um mero dispositivo de terror, escondendo-se dos perigos como em qualquer filme genérico do gênero. A ironia é que Templeton interpretou a mesma Laura no remake de Silent Hill 2 desenvolvido pela Bloober Team, ou seja, a produção tinha à disposição uma atriz com conhecimento nato da fonte, mas desperdiçou seu talento.
O próprio diretor Christophe Gans frequentemente se declara fã dos jogos, mas o filme erra em detalhes que até mesmo jogadores casuais notariam. Em uma cena, Mary reclama que Silent Hill é entediante por não ter museus ou casas noturnas – locais que, no jogo Silent Hill 2, são visitáveis, e que o próprio filme mostra logo em seguida. A crítica aponta que Gans trata a obra-prima psicológica como um “rascunho a ser corrigido”, em vez de confiar e respeitar o material original.
A fonte complementar, uma entrevista de 2001 com o artista de CG Takayoshi Sato, um dos responsáveis pelo visual marcante de Silent Hill 2, revela as influências que moldaram o jogo: filmes como Jacob’s Ladder (de Adrian Lyne), obras de David Lynch, David Fincher e David Cronenberg, além de pintores como Francis Bacon, Andrew Wyeth e Rembrandt. Sato explica que a equipe da Konami buscava combinar horror com uma história dramática, criando ambientes assustadores primeiro e depois encaixando a trama – abordagem oposta à adotada por Gans no filme.
A crítica conclui que, após 20 anos e três tentativas de adaptação, o problema não é que Silent Hill não possa ser levado ao cinema, mas que os cineastas insistem em “consertar” algo que nunca esteve quebrado. Para quem busca a experiência mais fiel ao espírito da série, a recomendação é assistir a Jacob’s Ladder, disponível gratuitamente no YouTube, e não os filmes oficiais. Se a Konami quiser levar a franquia às telas com justiça, deveria entregar o projeto a um diretor que compreenda as sensibilidades japonesas que estão no coração de Silent Hill, como Genki Kawamura (Exit 8) ou Kiyoshi Kurosawa (Cure, Pulse).
Leia mais aqui em inglês: https://www.ign.com/articles/2001/08/17/interview-with-silent-hill-2s-artist-takayoshi-sato.
Fonte: IGN.
Polygon.com.
2026-06-17 17:57:00








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