Paralives em Acesso Antecipado: O Simulador de Vida que Abraça o Caos Humano

Após 35 horas imerso no mundo de Paralives, o novo concorrente do The Sims, é possível afirmar que o jogo conseguiu capturar não apenas os elementos práticos da humanidade, mas também aqueles estranhos que costumamos varrer para debaixo do tapete. A análise do acesso antecipado revela um simulador de vida ambicioso, que, apesar de ainda ter muito espaço para crescer, já mostra um caminho promissor para desafiar o reinado do gênero.

A jornada em Paralives começa em um trem, com um tutorial rápido que ensina o jogador a controlar as ações dos Parafolk — como são chamados os cidadãos digitais. É possível começar com famílias pré-definidas, como a dupla de pai e filho da casa Marquez, que esconde segredos sob uma aparência alegre, ou o trio festeiro da família Wolf, que precisa se organizar para pagar as contas. Essas famílias são bem escritas e têm seus próprios problemas, o que agrada quem prefere uma história rica. Para quem gosta de criar seus próprios personagens, o modo Paramaker permite isso de imediato.

O Paramaker é dividido em três seções: Aparência, Roupas e Personalidade. É possível ajustar características faciais e corporais usando pontos de ancoragem, como se fosse massinha, um processo reativo e recompensador, especialmente se você estiver usando uma foto de referência. As opções de personalização ainda são limitadas, mas há um esforço claro para representar a diversidade do mundo real: os cabelos incluem texturas lisas, onduladas, cacheadas e crespas, e há opções de aparelhos auditivos e pernas protéticas. É possível adicionar piercings, joias e tatuagens para dar mais personalidade, evitando o temido ‘rosto igual’ que assombra outros jogos. As roupas também têm variedade, do estilo gótico ao coquete, incluindo até uma macacão body morph.

O estilo artístico de Paralives se destaca, evocando a nostalgia dos jogos clássicos da Telltale, como The Wolf Among Us. Essa abordagem de quadrinhos dinâmicos é agradável aos olhos e faz com que detalhes como rugas, pelos faciais e cílios se destaquem. Os Parafolk, ao expressar emoções ou realizar ações como cozinhar ou mexer no celular, parecem mais bobos e cativantes do que os habitantes de concorrentes como InZOI, lembrando o The Sims 2. Essa conexão emocional é um ponto forte.

No entanto, a seção de Personalidade é onde o jogo tropeça. As opções são limitadas: cada Parafolk recebe uma Vibração, uma Habilidade Social e uma Área de Talento, que influenciam como eles interagem com o mundo. Por exemplo, a habilidade ‘Bom em cuidar dos outros’ permite fazer sopa de galinha para amigos doentes, enquanto a vibração ‘Sombrio’ faz o personagem ser mais feliz quando está de mau humor. Conforme você joga, mais slots são desbloqueados, mas essas escolhas não se traduzem claramente na jogabilidade. Mesmo com personalidades drasticamente diferentes, a maioria das famílias reagiu de forma semelhante a incidentes importantes.

Um mecanismo único é o Contador de Histórias, que define a dificuldade do dia a dia. Todas as manhãs, cartas são distribuídas, causando eventos aleatórios — um dia você pode ganhar um computador do trabalho, no outro um membro da família pode ser incentivado a trair o cônjuge. Esse sistema adiciona a entropia necessária para manter as coisas frescas a longo prazo, um dos maiores desafios do gênero. Embora os prompts pareçam repetitivos em conceito, eles se mostram eficazes na prática.

Depois de criar a família, é hora de encontrar uma casa. O modo de construção tem uma variedade limitada de itens, mas oferece customização suficiente para manter o jogador ocupado por horas. É possível erguer paredes, adicionar janelas e portas, e decorar com opções modernas. Uma ferramenta de encaixe ajuda a manter a arquitetura equilibrada, mas há espaço para ousar. É possível colocar itens em quase qualquer lugar, como empilhar copos de macarrão instantâneo em cima da geladeira ou adicionar almofadas aleatórias no sofá. Para os mais excêntricos, é possível espalhar mofo, umidade e pelos pelo corpo, criando um espaço verdadeiramente personalizado, ainda que nojento.

Essa customização tem um lado negativo: muitos objetos são apenas estéticos. Os macarrões instantâneos não podem ser comidos, as almofadas não amassam quando um personagem se senta, e é possível atravessar um trem em movimento ileso. O mundo aberto tenta parecer vivo com um jornal diário e atividades como clubes de corrida e churrascos, mas esses eventos parecem superficiais, com os locais agindo como se estivessem em um cronograma. A sociedade ainda não parece coesa.

A sobrevivência no jogo se resume a necessidades básicas: Higiene, Fome, Sono e Banheiro. Atender a essas necessidades é uma batalha constante, mas morrer por negligência não é tão fácil. Os dias são divididos entre trabalhar, mexer em eletrodomésticos e socializar. O progresso é rudimentar — muitas vezes o jogador fica preso lendo um livro para subir de nível ou esperando o fim do expediente. A parte social, porém, traz uma abordagem refrescante: em vez de selecionar um tópico de conversa, é necessário interagir até preencher um medidor de conversa, escolhendo entre opções como perguntar se a pessoa está solteira, contar piadas ou falar sobre eventos da vida. No início, essa abordagem não agradou, mas com o tempo se mostrou útil, permitindo que o jogador cuide de várias conversas ao mesmo tempo, como um malabarista.

O caos do acesso antecipado também aparece: em uma ocasião, a casa pegou fogo porque os bombeiros spawnavam do lado de fora sem conseguir entrar pela porta. Em outra, uma família inteira foi infectada por um vírus que circulava sem parar, obrigando todos a se revezarem entre a cama e o banheiro. Esses incidentes, que poderiam ser frustrantes, acabam sendo engraçados e cativantes graças ao estilo artístico e ao charme bobo do jogo. Onde as atividades do dia a dia carecem de profundidade, essas arestas mostram a personalidade caótica que faz Paralives se destacar entre concorrentes mais estabelecidos.

Leia mais aqui em inglês: https://www.ign.com/articles/paralives-review-early-access.

Fonte: IGN.

IGN Articles.

2026-05-27 23:13:00

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