Uma fotografia banal de um escritório amarelado se transformou em um dos mitos de terror mais definidores da era digital e agora é um longa-metragem que supera franquias como Star Wars em popularidade. O curioso é que a imagem original dos Backrooms não mostra monstro, violência ou susto fácil — apenas um ambiente estranho que milhões de pessoas reconheceram como inquietante no primeiro olhar. Para muitos, a razão desse fascínio não está no espaço infinito em si, mas no que ele representa: a própria internet.
A internet dos anos 1990 e 2000 era um território de descoberta. Com alguns cliques, era possível tropeçar em sites pessoais bizarros, fóruns de nicho, páginas de fãs, blogs abandonados e projetos de arte estranhos. A web parecia infinita, mas ainda carregava uma marca humana. Hoje, a internet é tecnicamente maior do que nunca, mas paradoxalmente parece menor. Isso é resultado de um design intencional: plataformas dominam a atenção, algoritmos empurram os usuários para o mesmo conteúdo e os resultados de busca são cada vez mais poluídos por conteúdo patrocinado e desinformação gerada por inteligência artificial.
Nenhum lugar captura essa sensação de vazio corporativo melhor do que a interpretação de Kane Parsons para o fenômeno dos Backrooms. Tanto seus vídeos no YouTube quanto o novo filme destacam os Backrooms como um projeto corporativo que deu errado — um experimento conduzido por cientistas e executivos tentando explorar dimensões além da compreensão humana. Um dos vídeos da série, intitulado Backrooms – Presentation, torna esse caso ainda mais evidente e aterrorizante ao mostrar um anúncio fictício listando todas as formas como o A-Space da Async pode ser usado para aumentar lucros: armazenamento, depósito, espaço comercial, residencial, escritórios corporativos, entre outros.

A história de Parsons não é sobre os monstros dentro do espaço, mas sobre se perder dentro de sistemas construídos por organizações que perseguem objetivos que as pessoas comuns mal compreendem. O mais estranho sobre os Backrooms é que eles surgiram exatamente do tipo de internet que muitos agora lamentam. Nenhum criador único construiu a mitologia. Ela se espalhou por imageboards, wikis, fóruns, vídeos do YouTube e comunidades de roleplay, com milhares de contribuidores adicionando coletivamente novos cômodos, entidades e histórias simplesmente porque achavam a ideia fascinante. Os Backrooms só poderiam existir em uma internet participativa, movida pela curiosidade em vez da otimização.
No entanto, o horror que retratam parece inseparável da internet que veio depois. À medida que as plataformas se tornaram cada vez mais centralizadas, os algoritmos substituíram a exploração e os feeds infinitos transformaram a navegação em consumo passivo, a web começou a parecer menos uma fronteira e mais um labirinto. Os Backrooms capturam perfeitamente essa mudança. É a internet imaginando seu próprio futuro e recuando diante do que vê. Um mito colaborativo nascido de uma era de descoberta digital se tornou um dos símbolos definidores da alienação e do isolamento.
Nesse sentido, os Backrooms parecem uma lembrança distorcida do que a internet um dia foi. A versão de Parsons parece consciente dessa contradição. Em certo momento, o protagonista do filme, Clark (interpretado por Chiwetel Ejiofor), diz: Quanto mais vezes algo se lembra, menos faz. A frase se refere aos próprios Backrooms, mas também soa como uma descrição da web moderna. A internet lembra de tudo, mas cada camada de republicação, arquivamento, classificação algorítmica e reciclagem de conteúdo nos afasta cada vez mais do original. O que resta são fragmentos de capturas de tela sem contexto, fóruns abandonados, links mortos e comunidades meio esquecidas. Os Backrooms parecem a internet tentando se lembrar do que foi e encontrando apenas ecos distorcidos.
Aquela sala amarelada original é assustadora porque parece familiar — não porque estivemos lá fisicamente, mas porque estivemos lá digitalmente. Já clicamos em abas infinitas, vagamos por cadeias de recomendações, esquecemos o que procurávamos originalmente e nos encontramos em algum lugar estranho e vazio. Os Backrooms se tornaram uma das histórias de terror definidoras da era da internet porque entenderam que o labirinto mais assustador não estava escondido sob a realidade. Nós mesmos o construímos. O filme Backrooms está em cartaz nos cinemas.
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Fonte: milk.com.
Polygon.com.
2026-06-01 19:00:00








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