Virtue and a Sledgehammer: neurocientista explica por que destruir coisas dá prazer (e não é catarse)

Virtue and a Sledgehammer é um adventure narrativo em desenvolvimento pela Deconstructeam e Selkie Harbor, publicado pela Devolver Digital. No jogo, você acompanha Pratelle, uma mulher que volta à sua cidade natal na Espanha rural disposta a destruir o que sobrou dela armada com o que descreve como 20 quilos de mídia física. No caminho, ela encontra antigos vizinhos cujas memórias foram transferidas para robôs de cabeça cúbica. Alguns a recebem com desconfiança, outros com agressão. De qualquer forma, todos levam martelada.

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Fonte da imagem: Polygon

A premissa chamou a atenção o suficiente para uma experiência real: uma rage room em Manhattan, no Lower East Side, onde a fantasia do jogo foi reproduzida na prática. A conclusão é que quebrar coisas dá uma sensação boa — mas não pelo motivo que a maioria imagina.

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O Dr. Eric Leonardis, neurocientista afetivo e pós-doutorando no Salk Institute, em La Jolla, na Califórnia, explica que a ideia de quebrar objetos serve para extravasar a raiva é um mito. Segundo ele, uma meta-análise recente que reuniu 154 estudos avaliou tentativas de acalmar a raiva por meio de atividade física, como bater em um saco de pancadas ou correr. O resultado foi o oposto do esperado: as pessoas relataram se sentir mais irritadas depois.

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Image: Deconstructeam / Selkie Harbour / Devolver DigitalFonte da imagem: Polygon

O fenômeno tem nome: transferência de excitação. Quando o coração acelera e o corpo entra em estado de estresse, o cérebro tem dificuldade em identificar a origem daquela ativação, e ela tende a continuar. Ou seja, destruir objetos aleatórios não reduz o luto ou a raiva de forma direta.

O que acontece é outra coisa. Segundo Leonardis, o cérebro libera uma cascata de substâncias prazerosas: endocanabinoides (ligados à sensação de barato de corredor), opioides endógenos (a morfina natural do corpo, liberada pela glândula pituitária e pelo hipotálamo), dopamina (a recompensa, liberada na área tegmental ventral e no estriado) e serotonina (regulação de humor, liberada durante esforço físico). É esse coquetel que faz o comportamento ser reforçado — quanto mais prazer, mais vontade de repetir.

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O neurocientista também aponta que a destruição ritual tem raízes antigas. Culturas maias e indígenas do sudoeste americano, por exemplo, destruíam cerâmicas de pessoas mortas em rituais funerários, furando os objetos para que ninguém mais os usasse e colocando-os sobre o rosto dos mortos. Para Leonardis, isso é uma tentativa humana de afirmar controle e agência diante de uma situação de impotência — algo que pode ter valor simbólico e levar à aceitação.

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Essa sensação de controle também afeta a dor física. Estudos sobre a ilusão de controle mostram que pessoas que recebem choques administrados por outra pessoa apresentam estresse fisiológico alto, medido por suor e condutância da pele. Mas quando dizem a elas que têm controle sobre o choque, relatam menos dor. Talvez por isso Pratelle prefira segurar o martelo em vez de assistir ao mundo queimar.

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Leonardis ainda lembra que a destruição simulada, seja em rage rooms ou em jogos como Virtue and a Sledgehammer, satisfaz a curiosidade mórbida e ajuda a preparar o cérebro para situações negativas. O córtex pré-frontal permite separar realidade de simulação. Ele não afirma que isso seja terapia clínica — para trauma, o ideal é procurar um profissional. Mas explorar a curiosidade mórbida não é algo negativo e pode mostrar como você reagiria se as coisas dessem errado.

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Virtue and a Sledgehammer ainda não tem data de lançamento divulgada. O jogo está em desenvolvimento para plataformas não especificadas, com publicação da Devolver Digital.

Visão Gamer: para quem curte narrativas densas e jogos que misturam destruição com carga emocional, Virtue and a Sledgehammer aposta em uma estética low-poly de alto contraste e um ritmo que foge do padrão Unreal Engine 5. A proposta de destruir a própria cidade natal como mecânica central é o gancho mais forte — e, segundo a neurociência, pode ativar recompensas químicas no cérebro mesmo sem resolver a raiva por trás da história de Pratelle.

Leia mais aqui em inglês: https://www.polygon.com/virtue-sledgehammer-neuroscientist-interview/.

Fonte: Polygon.

2026-09-10 19:00:00

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