Crédito da imagem: Cyanide)Fonte da imagem: PcgamerGranted, I grew up on real-time-with-pause brawls
Um RPG de Game of Thrones parece uma combinação tão óbvia de licença e gênero que chega a ser estranho que, tanto cultural quanto corporativamente, essa ideia nunca tenha saído do papel de forma definitiva. A cada ano, os fãs alimentam a esperança de que um estúdio finalmente abrace a complexidade política e a brutalidade de Westeros em um grande CRPG, mas o projeto sempre parece estar a dois passos de distância de se tornar realidade. Enquanto isso, quem quer uma experiência mais próxima dos livros de George R.R. Martin pode encontrar um consolo inesperado em um título de 2012, produzido pela francesa Cyanide, que passou despercebido na época e hoje é praticamente esquecido – mas que, mesmo com todas as suas limitações, ainda carrega o espírito da obra de uma forma que poucos jogos conseguiram.
A especulação sobre um possível RPG de Game of Thrones sempre esbarra nos estúdios mais cotados. A Warhorse Studios, responsável pelos aclamados Kingdom Come: Deliverance, parecia a candidata natural, com suas simulações medievais cruas e imersivas. No entanto, a dona da Warhorse, a Embracer Group, também controla a Middle-earth Enterprises, o que direciona o futuro do estúdio para o universo de O Senhor dos Anéis. Já a Obsidian Entertainment, outra potência do gênero, parece igualmente improvável: Josh Sawyer, diretor de jogos como Fallout: New Vegas, já reclamou publicamente, em suas redes sociais, das formações de batalha irrealistas mostradas na série da HBO – o que torna difícil imaginá-lo à frente de um projeto ambientado em Westeros.

Diante desse impasse, a saída é olhar para o passado, como o próprio George R.R. Martin fez ao buscar inspiração para seus livros. Em 2012, a Cyanide lançou um jogo simplesmente chamado Game of Thrones, que acabou ofuscado dois anos depois pelo título homônimo da Telltale Games. Mas, para quem procura uma experiência CRPG de verdade, esse jogo esquecido pode ser a opção mais interessante – mesmo sendo um exemplo clássico de ‘eurojank’, termo usado para descrever jogos europeus de orçamento limitado, com mecânicas estranhas e texturas ásperas, mas que muitas vezes compensam com ideias ousadas e mundos fascinantes.
A Cyanide, estúdio parisiense hoje mais conhecido por Styx e Blood Bowl, já estava experimentando com CRPGs naquela época. No mesmo ano, lançou Confrontation, baseado em um wargame de tabuleiro francês, e Of Orcs and Men, um spin-off de Styx. Todos os três títulos tiveram recepção mista, mas Game of Thrones se destaca como o melhor do grupo, justamente por sua dedicação em tecer uma história dentro do denso tecido de Westeros. E, ao contrário do que se poderia esperar, o jogo não foi concebido como um tie-in da série da HBO: embora apresente as vozes e semelhanças de alguns atores da produção, como Lena Headey (Cersei), James Cosmo (Comandante Mormont) e Conleth Hill (Lord Varys), a equipe da Cyanide claramente se debruçou sobre os livros de Martin para construir a narrativa.

Essa fidelidade literária é mais evidente na estrutura do jogo, que alterna entre dois protagonistas em capítulos intercalados – um recurso comum na fantasia escrita, mas raro nos videogames. De um lado, um sacerdote de R’hllor, o deus vermelho, que compartilha sua fé com a Melisandre da série; do outro, um irmão da Patrulha da Noite, que luta com maças e cabeçadas. As duas histórias começam aparentemente desconectadas, mas gradualmente se cruzam, revelando que os interesses dos protagonistas podem não estar alinhados. O sacerdote perde seus títulos e precisa se tornar um capanga dos Lannister para reconquistar seu lugar como lorde; já o homem do Norte caça esses capangas para impedir que a Patrulha da Noite se desintegre, descobrindo que algumas moedas de ouro são suficientes para corromper um irmão – e os Lannister nunca tiveram falta de ouro.
A ação do jogo começa um ou dois meses antes dos eventos iniciais da série da HBO, colocando o jogador em uma posição privilegiada para testemunhar os acontecimentos que precipitam a guerra em Westeros. Robert Baratheon ainda cambaleia por aí, enchendo a barriga com javalis que ainda não conseguiram matá-lo, enquanto Cersei move suas peças no tabuleiro. O jogador pode não ser um peão, mas certamente é um dos cavaleiros dela, e rapidamente se vê cúmplice de esquemas sombrios.

Apesar das boas intenções, o jogo sofre com as limitações de orçamento. As atuações de voz são irregulares – muitas vezes soam como um elenco pequeno tentando encontrar um quarto ou quinto sotaque que pudesse ser atribuído a um camponês de Pulga. As ruas de Porto Real lembram mais uma cidade inglesa comum do que a Dubrovnik glamourosa da série, e o jogador revisita locais genéricos de Westeros com frequência. Os truques visuais para disfarçar a baixa fidelidade gráfica são típicos da era Xbox 360. Mas há um carinho por um elemento que foi duramente criticado na época: o sistema de combate. Para o autor da matéria original, essa mecânica peculiar, com suas imperfeições, é parte do charme do jogo.
A coluna Weird Weekend, do PC Gamer, que resgatou essa relíquia, argumenta que a comunidade de RPG dos anos 2000 tinha uma qualidade positiva: aceitava a imperfeição quando o jogo apresentava mecânicas estranhas e mundos fascinantes. E, ao comparar o jogo de 2012 com o mais recente Game of Thrones: Kingsroad, um espetáculo de luta mais polido lançado no ano passado, o autor conclui que o título da Cyanide captura muito mais o espírito de George R.R. Martin. Histórias ambientadas em Westeros não deveriam ser suaves e lisas; elas deveriam tremer e se encaixar com dificuldade, lenta e abruptamente, como os eventos tectônicos que retratam. E é exatamente isso que um CRPG pode oferecer.
Portanto, enquanto os fãs continuam esperando por um grande RPG de Game of Thrones que talvez nunca saia do papel, vale a pena revisitar essa joia esquecida de 2012. Não é um jogo perfeito, mas é uma prova de que, às vezes, a essência de uma obra está mais nas imperfeições do que na polidez. E, para quem busca uma experiência mais próxima dos livros, o jogo da Cyanide continua sendo uma das melhores opções disponíveis.
Leia mais aqui em inglês: https://www.pcgamer.com/games/rpg/stop-waiting-for-the-game-of-thrones-crpg-of-your-dreams-and-settle-for-the-pleasant-eurojank-compromise-instead/.
Fonte: PC Gamer.
PCGamer latest.
2026-08-08 16:00:00








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