Quem é assinante da Netflix conhece bem a sensação de se envolver com uma série e, em determinado momento, ver a trama perder força. É comum que produções promissoras enfrentem quedas de qualidade ao longo das temporadas, comprometendo a experiência como um todo. Exemplos não faltam: The Walking Dead, disponível no catálogo, tem vários momentos de tédio e se torna praticamente insuportável após a saída de Andrew Lincoln. Lost, por sua vez, perdeu o brilho quando começou a apostar em flash-forwards. Até Stranger Things, um dos maiores sucessos da plataforma, sofreu um declínio considerável depois da terceira temporada. Mas existem exceções: algumas séries de ficção científica disponíveis atualmente na Netflix conseguem ser excelentes do primeiro ao último episódio, sem deixar o espectador com a sensação de que precisa atravessar fases ruins para chegar às partes boas. A seguir, uma lista com 10 dessas produções.

A primeira delas é 11.22.63, minissérie baseada no livro de Stephen King. Com oito episódios, a trama acompanha Jake Epping (James Franco), um professor de inglês comum que recebe a missão de viajar no tempo para impedir o assassinato do presidente John F. Kennedy. Ao longo da jornada, Jake comete diversos erros no passado, como se envolver emocionalmente com as pessoas que encontra. A produção combina elementos clássicos da ficção científica com um dos momentos mais marcantes da história americana, criando uma atmosfera de presságio. Um dos pontos mais interessantes é a sensação de que o próprio tempo reage às ações do protagonista, como se o destino não pudesse ser alterado – e a missão fosse, no fundo, inútil.

Outra minissérie original Netflix é Maniac, criada por Patrick Somerville (The Leftovers) e baseada na série norueguesa de 2015. Com tom de comédia sombria, a história gira em torno de dois desconhecidos interpretados por Jonah Hill e Emma Stone, ambos com transtornos mentais severos, que se voluntariam para um teste clínico de um tratamento experimental que promete curar qualquer doença. Ao longo de dez episódios, a trama acompanha um ensaio de três dias em que os personagens mergulham em fantasias por vezes compartilhadas – algumas domésticas, como um casamento, outras surreais, como uma épica fantasia de elfos. A série é estranha e alucinante, mas também emocionante, pois aborda a aceitação de si mesmo.

Bodies, por sua vez, parte de uma premissa matadora. Baseada na graphic novel da DC escrita por Si Spencer, a série se passa em quatro momentos históricos diferentes – 1890, 1941, 2023 e 2053 – e em cada um deles o mesmo cadáver é encontrado no mesmo local em Londres. A produção acompanha as quatro investigações que, aos poucos, se entrelaçam. Bodies mistura clássicos da ficção científica, especialmente viagem no tempo, com elementos de detetive típicos do film noir. São oito episódios densos, que exigem atenção do espectador, mas a recompensa final é gratificante, com ótimo uso da premissa original.

Para quem busca comédia, The Tick é uma pedida certeira. Existem duas séries live-action baseadas no personagem disponíveis na Netflix, e ambas são consistentemente engraçadas. The Tick é um super-herói grande e tolo, com força sobre-humana e quase invulnerável, cujo parceiro é Arthur, um humano comum, fraco e covarde, que usa um traje de voo com tema de mariposa que parece mais um coelho. A franquia começou como história em quadrinhos no fim dos anos 1980 (antes, o personagem foi mascote de um boletim informativo) e ganhou um desenho animado genial nos anos 1990, que inspirou as duas séries live-action. A primeira, estrelada por Patrick Warburton (de Seinfeld) como o Grande Besouro Azul da Justiça, é uma comédia afiada, no estilo sitcom, focada nos momentos entre as aventuras do herói, quando ele relaxa em uma lanchonete com Arthur e outros superamigos. Durou apenas nove episódios antes de ser cancelada pela Fox, mas é uma joia escondida, principalmente porque Warburton nasceu para o papel. A segunda série, que estreou na Amazon em 2016, teve duas temporadas e 22 episódios e é ainda melhor que a primeira. Dessa vez, o foco é Arthur (Griffin Newman), que ganha mais profundidade, com inseguranças e problemas pessoais. The Tick (Peter Serafinowicz) continua o mesmo sujeito azul, grande e atrapalhado, que quebra coisas sem querer por não conhecer a própria força. Ambas são ótimas, mas se for escolher apenas uma, a segunda é superior, pois cada temporada conta uma história consistente e divertida, com muito coração.
Orphan Black é outra produção que merece destaque. Antes de viver a Mulher-Hulk, Tatiana Maslany brilhou nessa série canadense de suspense científico, em que sua personagem descobre ser apenas uma entre vários clones idênticos. A trama gira em torno de um experimento ilegal de clonagem que tenta encobrir suas atividades eliminando os clones. Mas o grande trunfo da série não é a premissa, e sim a atuação de Maslany. Ao longo de cinco temporadas e 50 episódios, a atriz interpreta 17 personagens completamente diferentes, cada um com manias e personalidades únicas, moldadas por experiências distintas. Após ser ignorada pelo Emmy nas duas primeiras temporadas, a repercussão foi tão grande que ela recebeu a indicação na terceira e venceu na quarta. Mesmo assim, o reconhecimento ainda fica aquém da magnitude de sua atuação.

Jurassic World: Acampamento Jurássico pode parecer apenas uma animação infantil, mas surpreende. A série, que inicialmente despertava baixas expectativas por ser voltada ao público jovem e baseada em uma franquia famosa, conquista pela qualidade. A trama acompanha um grupo de crianças que está na Ilha Nublar durante os eventos de Jurassic World – e muito depois. Elas participam de um acampamento na ilha quando os dinossauros escapam e o caos se instala. Os dois monitores responsáveis são forçados a embarcar em um barco de evacuação, deixando as crianças para trás. A partir daí, elas precisam sobreviver até encontrar uma forma de escapar. O que impressiona é o cuidado em encaixar a história na mitologia existente de Jurassic Park e Jurassic World. A série explora, por exemplo, o lado sombrio do Dr. Henry Wu (BD Wong), que nos filmes recentes é tratado como vilão, mas sem grande aprofundamento – aqui, isso se torna um dos melhores arcos recorrentes. Além disso, a produção dá destaque a espécies de dinossauros negligenciadas nos filmes, como o Anquilossauro e o Carnotauro. Com cinco temporadas e 50 episódios, Acampamento Jurássico mantém um nível consistente e, na opinião de muitos, é melhor do que alguns filmes da franquia.

Pantheon é uma animação para adultos que estreou na AMC e teve sua segunda e última temporada no Prime Video. A trama se passa em um mundo onde duas empresas de tecnologia rivais, Logorhythms e Alliance Telecom, fazem avanços na ciência de upload da mente para um mundo virtual. A série acompanha três personagens principais: Maddie Kim (Katie Chang), uma adolescente vítima de bullying que descobre que seu pai morto não está realmente morto, mas foi enviado para o mundo virtual pela Logorhythms; Caspian Keyes (Paul Dano), um gênio da computação de 17 anos que descobre que toda a sua vida foi uma mentira orquestrada pela Logorhythms; e Vinod Chanda (Raza Jaffrey), um engenheiro que é enviado contra sua vontade pela Alliance Telecom e agora vive no mundo virtual. Pantheon explora ideias semelhantes às de Matrix, contrastando o mundo virtual com o real, mas os antagonistas são muito mais próximos da nossa realidade: em vez de máquinas, os vilões são CEOs implacáveis e indiferentes, que não se importam com as pessoas que ferem em nome do progresso. Visualmente, a série é impressionante, especialmente nas cenas no mundo virtual. Ao longo de 16 episódios bem construídos, ela nunca perde de vista o que está em jogo no mundo real.

Cassandra é outro thriller tecnológico, mas com sabor bem diferente. Essa série alemã de terror acompanha uma família que se muda para a primeira casa inteligente da história, construída nos anos 1970. Os recursos de inteligência artificial estão adormecidos no início, mas o filho da família, apaixonado por tecnologia, ativa o sistema, dando vida a Cassandra, uma mulher robô com estética dos anos 1970. Com o tempo, o comportamento de Cassandra se torna cada vez mais estranho e manipulador, e a família percebe que ela é muito mais do que um simples eletrodoméstico. Criada por Benjamin Gutsche, a série de seis episódios é um slow burn perfeito, que planta suas sementes metodicamente antes de revelações chocantes e consequências aterrorizantes.

Dark é outro importado alemão que vale a jornada. Criada por Baran bo Odar e Jantje Friese, a série de três temporadas e 26 episódios acompanha quatro famílias em uma pequena cidade alemã investigando o desaparecimento de uma criança. A pista leva a uma conspiração de viagem no tempo que se estende por várias gerações, tanto para o passado quanto para o futuro. O que impressiona é como as apostas crescem astronomicamente a cada temporada, começando com um simples caso de pessoa desaparecida e evoluindo para consequências potencialmente apocalípticas. Ainda mais notável é a capacidade de expandir a premissa sem perder a humanidade dos personagens, uma façanha rara.
Por fim, Resident Alien é uma comédia de ficção científica estrelada por Alan Tudyk, conhecido por dublar K-2SO em Rogue One: Uma História Star Wars e por interpretar o piloto Wash em Firefly. Na série, Tudyk interpreta um alienígena enviado à Terra para destruir a humanidade em benefício do planeta. No entanto, ele acidentalmente cai no Colorado e mata um médico local. Assumindo a identidade do médico, ele tenta descobrir como cumprir sua missão, mas começa a questionar seus objetivos. Com quatro temporadas e 44 episódios, a série combina humor e ficção científica de forma consistente, mostrando que é possível manter a qualidade do início ao fim.
Leia mais aqui em inglês: https://www.polygon.com/best-sci-fi-shows-on-netflix/.
Fonte: Polygon.
2026-08-07 22:00:00








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