15 anos depois, ‘Meia-Noite em Paris’ ainda nos faz questionar a nostalgia e o papel da arte

Quinze anos atrás, o mundo parecia sombrio e instável para um recém-formado em literatura, sem perspectivas claras em meio à recessão e ao colapso do jornalismo. Foi nesse contexto que o filme “Meia-Noite em Paris” (2011), de Woody Allen, chegou como uma revelação. A história de Gil Pender (Owen Wilson), um roteirista que sonha em ser romancista e que, todas as noites à meia-noite, é transportado para a Paris dos anos 1920, onde convive com Hemingway, os Fitzgerald, Gertrude Stein e outros expoentes da Geração Perdida, capturou a imaginação de muitos. Mais do que uma simples fantasia de viagem no tempo, o filme a trata como um artifício literário, entregando-se completamente a essa fantasia antes de desmontá-la silenciosamente.

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Adrien Brody como Salvador Dali apropriadamente louco é um verdadeiro destaque.Imagem: Clássicos da Sony Pictures Crédito da imagem: Clássicos da Sony Pictures A Paris retratada no filme não é um cartão-postal
Fonte da imagem: Polygon

A Paris retratada no filme não é um cartão-postal. A abertura mostra uma montagem de fotos silenciosas da capital francesa, com a Torre Eiffel aparecendo casualmente ao fundo, como parte do cenário, não como espetáculo. Tudo é filmado em cafés, restaurantes, festas e lojas, criando uma intimidade que contrasta com a alienação de Gil em relação ao mundo moderno. Sua noiva Inez (Rachel McAdams) e os pais dela tratam Paris como uma viagem de compras de luxo, reclamando e desprezando a arte. O verdadeiro antagonista do filme é o cinismo personificado por Paul Bates (Michael Sheen), o pseudo-intelectual que corrige guias turísticos, reduz a arte a trivialidades e trata a cultura como uma competição. Paul vocaliza todas as críticas céticas à visão de Gil: romantizar o passado é ingênuo, nostalgia é fraqueza, arte é algo para dissecar, não para sentir. No entanto, o filme também não descarta Paul completamente, sugerindo que qualquer extremo é um erro.

Sob a fantasia e as referências literárias, “Meia-Noite em Paris” oferece uma tese afiada sobre a nostalgia, que ressoa até hoje. Gil idealiza a Geração Perdida como a era de ouro da arte e do significado. Ele se contenta em ser um turista, reescrevendo seu romance com a ajuda de Gertrude Stein, e se apaixona por Adriana (Marion Cotillard), musa de Picasso. Mas quando viaja com ela para a Belle Époque dos anos 1890, descobre que Adriana vê aquele período como a Idade de Ouro, enquanto Gauguin e Degas sonham com o Renascimento. Gil percebe que essa saudade não tem fim: cada geração imagina que a verdadeira magia existiu pouco antes da sua. Como escreveu Fitzgerald em “O Grande Gatsby”: “Então seguimos em frente, barcos contra a corrente, levados incessantemente de volta ao passado”. Adriana decide ficar na Belle Époque, e Gil encara a decisão com desgosto. A nostalgia, argumenta o filme, é evidência de que as pessoas lutam para viver no presente; a vida é difícil, então mergulhamos no passado. Essa ideia universal torna o filme tão relevante em 2026 quanto em 2011.

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Imagem: Clássicos da Sony Pictures Crédito da imagem: Clássicos da Sony Pictures A Paris retratada no filme não é um cartão-postal
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Uma das falas mais importantes vem de Gertrude Stein (Kathy Bates) em uma cena tardia: “Todos nós tememos a morte e questionamos nosso lugar no universo. A função do artista não é sucumbir ao desespero, mas encontrar um antídoto para o vazio da existência.” Allen coloca o objetivo de todo o empreendimento na boca de um personagem, forçando o espectador a ouvir. A arte é a única coisa que pode nos convencer de que a vida não é vazia. Gil precisa aprender que a arte não é criada por quem foge do desespero, mas por quem aprendeu a conviver com ele, usando essa dor para tornar a vida dos outros mais suportável.

O filme funciona em grande parte graças à atuação emocionalmente transparente de Owen Wilson, ao roteiro genuinamente engraçado e às interpretações que canalizam fantasmas literários: o Hemingway inexpressivo de Corey Stoll, o Salvador Dali louco de Adrien Brody, e a própria Paris, retratada com ternura amorosa. Quinze anos depois, o autor do texto original admite que não fantasia mais em beber vinho com Hemingway e Fitzgerald — Hemingway era infeliz e ciumento, Fitzgerald morreu jovem e destroçado. Os mitos obscurecem verdades humanas mais feias. Mas, se um carro centenário aparecesse à meia-noite em Paris, ele ainda entraria. “Meia-Noite em Paris” está disponível para streaming no Tubi.

Leia mais aqui em inglês: https://www.polygon.com/midnight-in-paris-15th-anniversary-review/.

Fonte: Polygon.

Polygon.com.

2026-05-19 23:00:00

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