Enquanto Christopher Nolan se prepara para lançar sua aguardada adaptação de ‘A Odisseia’, um olhar para trás revela que Hayao Miyazaki já havia transformado uma figura secundária do poema homérico em uma das heroínas mais marcantes da animação. Em 1984, muito antes de fundar o Studio Ghibli, Miyazaki e o estúdio Topcraft lançaram ‘Nausicaä do Vale do Vento’, filme que se inspirou na princesa feácia que ajuda Odisseu após um naufrágio. O que poderia ser uma simples referência clássica se tornou uma obra que ecoa os mesmos temas de empatia, curiosidade e resistência que mais tarde definiriam ‘Princesa Mononoke’, ‘Porco Rosso’ e ‘A Viagem de Chihiro’.
A trama de ‘Nausicaä’ não é uma adaptação direta de Homero, mas compartilha com o épico grego a jornada perigosa por um mundo fragmentado e uma reflexão profunda sobre a relação da humanidade com a natureza. A protagonista, assim como Odisseu, não se destaca pela força bruta, mas pela empatia, pela curiosidade e por uma recusa obstinada em aceitar o mundo como ele é. Ela transita entre reinos hostis, enfrenta conflitos políticos brutais — como a guerra entre Pejite e Tolmekia — e sobrevive a encontros que deveriam ser fatais. Cada novo destino traz uma cultura, um perigo e uma lição sobre os sobreviventes de uma civilização em ruínas.

Miyazaki, no entanto, não se limitou a Homero. A reverência de Nausicaä pela natureza também bebe diretamente do conto japonês do século 12 ‘A Dama que Amava Insetos’, que narra a história de uma princesa que desafia as convenções sociais ao estudar lagartas em vez de admirar borboletas. Nausicaä herda essa mesma curiosidade: em vez de temer os gigantescos insetos blindados chamados Ohmu, ela busca compreendê-los e reconhece que não são monstros, mas criaturas vivas que reagem à violência humana. Com isso, Miyazaki abraça uma visão de mundo comum ao folclore japonês, na qual a natureza possui espírito próprio e exige respeito, não dominação — conceito que mais tarde seria central em ‘Princesa Mononoke’.
Enquanto em ‘A Odisseia’ cada obstáculo de Odisseu é tratado como um teste divino, Miyazaki propõe uma questão radicalmente diferente: e se o mundo não estiver testando a humanidade? E se a humanidade for responsável por seu próprio sofrimento? Essa ideia está no cerne de ‘Nausicaä’. O Mar da Corrupção, uma floresta tóxica em expansão, parece ser a maior ameaça do planeta, mas Nausicaä descobre o oposto: a floresta está silenciosamente curando um mundo devastado por guerras humanas, limpando o solo envenenado pela destruição industrial. O verdadeiro inimigo não é a natureza, mas o ciclo interminável de conflitos que convenceu as pessoas de que poderiam dominar o mundo.
Essa temática ecoa surpreendentemente ‘A Odisseia’. Homero escreveu sobre guerreiros que retornam de uma década de conflito apenas para descobrir que a vitória teve custos pessoais e sociais profundos. Odisseu sobrevive a Troia, mas a guerra persiste em cada escolha subsequente. O lar não é mais apenas um lugar para onde voltar; é algo que precisa ser reconstruído depois que a violência transformou fundamentalmente a própria natureza de sua realidade.

Miyazaki chega a uma conclusão semelhante por um caminho diferente. O mundo de ‘Nausicaä’ existe à sombra dos Sete Dias de Fogo, uma guerra cataclísmica que devastou o planeta há um milênio. Cada reino acredita que outra arma, outro exército ou outra demonstração de força pode finalmente garantir a paz, mas cada tentativa apenas empurra o mundo mais perto da aniquilação total. Nausicaä rejeita essa lógica e insiste que a empatia é mais poderosa e importante do que a conquista. A única maneira de salvar a humanidade é preservar o que a torna humana em primeiro lugar.
Talvez seja por isso que ‘Nausicaä’ ainda ressoe mais de quatro décadas depois. O filme responde às mesmas questões filosóficas que Homero levantou, mas através das lentes do folclore japonês, tudo como uma forma de refletir sobre ansiedades do pós-guerra — e a crença duradoura de que a compaixão é a maior ferramenta de sobrevivência da humanidade. Enquanto a ‘Odisseia’ de Nolan segue um guerreiro desesperado para voltar para casa, ‘Nausicaä do Vale do Vento’ se inspira em uma dos estranhos compassivos que o ajudam ao longo do caminho. Ao transformar a princesa brevemente vista de Homero na heroína de sua própria epopeia, Miyazaki faz da compaixão — e não da conquista ou da astúcia — a maior fonte de força de uma pessoa.
Assim, um dos descendentes modernos mais ricos do poema homérico esteve escondido à vista de todos por décadas, flutuando sobre a Selva Tóxica nas asas de uma princesa de azul. ‘Nausicaä do Vale do Vento’ está disponível para streaming na HBO Max.
Leia mais aqui em inglês: https://www.polygon.com/christopher-nolan-the-odyssey-nausicaa-of-the-valley-of-the-wind/.
Fonte: Polygon.
2026-07-27 10:00:00








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