O caminho trilhado pela indústria de games nos últimos anos serve como um alerta para Hollywood. Enquanto estúdios antes independentes como 21st Century Fox, Columbia, Tristar, Pixar, MGM, Turner, New Line, Lucasfilm, DreamWorks, Miramax e RKO foram absorvidos por gigantes como Disney, Sony, NBC Universal e Amazon, o cenário atual do cinema e da TV se assemelha cada vez mais ao dos videogames: poucos proprietários, cada vez mais ricos, concentrando esforços apenas em produções com potencial de bilheteria bilionária.
A indústria dos games já demonstrou as consequências desse modelo: dezenas de milhares de demissões nos últimos anos, com empresas como Embracer e Microsoft se desfazendo de estúdios que adquiriram em ritmo acelerado. Agora, Hollywood pode estar prestes a repetir o erro, caso a Paramount, liderada por David Ellison — bilionário filho de Larry Ellison, aliado de Donald Trump, com aporte saudita —, concretize a compra da Warner Bros. Discovery.
Uma possível luz no fim do túnel, no entanto, vem de autoridades que parecem dispostas a agir. Na segunda-feira, o procurador-geral da Califórnia, Rob Bonta, entrou com uma ação judicial para bloquear a aquisição. Apoiado pelos procuradores de outros 11 estados — Arizona, Colorado, Connecticut, Massachusetts, Minnesota, Nevada, Nova Jersey, Novo México, Nova York, Oregon e Washington —, Bonta argumentou que a consolidação leva a menos oportunidades para que histórias importantes ganhem vida, e menos maneiras para o público encontrar narrativas, ideias e perspectivas além de suas próprias experiências.
A ação alega que a fusão criaria um gigante da mídia, deixando apenas quatro empresas no controle de mais de 85% de todos os filmes com amplo lançamento nos cinemas dos Estados Unidos. Juntas, Paramount e Disney comandariam quase 60% de toda a TV a cabo básica do país. Além do legado cinematográfico centenário da Warner Bros. Discovery, a empresa também controla CNN, HBO, DC, WB Games, Discovery Channel e Cartoon Network.
A aquisição representaria uma reestruturação drástica do poder na indústria, especialmente após Ellison assumir a Paramount por meio de uma fusão com sua empresa Skydance em 2025. A proximidade da família Ellison com a administração Trump facilitou a aprovação pelo FCC — depois que a empresa concordou em pagar US$ 16 milhões ao presidente em um processo considerado infundado sobre uma entrevista de Kamala Harris ao 60 Minutes, e posteriormente cancelou o Late Show de Stephen Colbert. Enquanto isso, o presidente do FCC, Brendan Carr, investiga a Disney por discriminação DEI e praticamente ignorou as ações estaduais contra a fusão.
Os advogados da Paramount insistem que a fusão é pró-competitiva, apesar dos milhares de cortes de empregos já realizados e dos que certamente virão após a aquisição. A WB Games já foi descartada como parte insignificante do negócio, o que torna difícil imaginar um cenário positivo para os games. No front dos streamings, a tendência é de aumento de preços e redução dos catálogos disponíveis, combinando HBO Max e Paramount+.
O governo federal, diferentemente da administração anterior — que ao menos tentou, sem sucesso, barrar a compra da Activision pela Microsoft —, não demonstra interesse em intervir. No entanto, o Columbia Journalism Review aponta que os estados ainda têm chance de impedir o negócio. Caso contrário, a dívida combinada de US$ 80 bilhões da nova empresa inevitavelmente levará a cortes drásticos, como os que a Xbox já sinalizou ao realocar investimentos para projetos de maior prioridade.
Mesmo que o acordo fracasse, o cenário não é animador: o impopular CEO da Warner Bros. Discovery, David Zaslav, permaneceria no comando de um legado cinematográfico pelo qual parece ter pouco interesse além do lucro. Mas, como os últimos quatro anos nos games mostraram, sempre pode piorar.
Leia mais aqui em inglês: https://www.pcgamer.com/movies-tv/hollywood-still-has-time-to-avoid-the-gaming-industrys-disastrous-consolidation-endgame/.
Fonte: PC Gamer.
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2026-07-14 20:30:00








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