A Electronic Arts (EA), uma das maiores desenvolvedoras e publicadoras de jogos do mundo, não é mais uma empresa de capital aberto. A transação bilionária que tirou a companhia da bolsa de valores foi oficialmente concluída na terça-feira, 4 de agosto de 2026, após a aprovação regulatória final. O negócio, avaliado em US$ 55 bilhões, foi fechado em parceria entre o Fundo de Investimento Público da Arábia Saudita (PIF), a Affinity Partners, de Jared Kushner, e a Silver Lake, em uma aquisição totalmente em dinheiro.
A conclusão do acordo foi anunciada pela própria EA, que já havia comunicado ao mercado que a fusão seria finalizada em agosto. Em documento protocolado na Securities and Exchange Commission (SEC), a comissão de valores mobiliários dos Estados Unidos, a empresa confirmou que todas as aprovações regulatórias necessárias foram obtidas até 30 de julho de 2026. O texto do documento dizia: A partir de 30 de julho de 2026, todas as aprovações regulatórias necessárias para concluir a fusão foram obtidas. A Electronic Arts espera que a fusão seja concluída em ou por volta do fechamento do mercado em 4 de agosto de 2026. Um dos últimos obstáculos para o negócio foi a Comissão Europeia, que aprovou a transação em 23 de julho.

O consórcio comprador é formado por três grandes players do mercado financeiro global. O PIF é o fundo soberano da Arábia Saudita, criado em 1971 e supervisionado pelo príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, governante de facto do país. De acordo com o site do fundo, ele administra US$ 900 bilhões em ativos. A Silver Lake é uma firma de investimentos focada em tecnologia, com sede em Nova York e Menlo Park, na Califórnia. Fundada em 1999, a empresa tinha US$ 102 bilhões em ativos sob gestão em 31 de dezembro de 2025, o que a coloca entre as 25 maiores gestoras de private equity do mundo. Já a Affinity Partners, fundada em 2021 por Jared Kushner, genro do ex-presidente dos EUA Donald Trump, administra US$ 5,4 bilhões em ativos. A firma é majoritariamente financiada pelo próprio PIF e já foi alvo de controvérsias e investigações governamentais por causa dos negócios diretos de Kushner com governos do Oriente Médio durante seu período como enviado especial da segunda administração Trump.
A compra da EA pelo PIF não é um movimento isolado. Nos últimos anos, o fundo saudita tem ampliado sua influência na indústria de games por meio de aquisições e investimentos estratégicos. O PIF detém 97% da publicadora SNK, responsável por franquias como Fatal Fury e The King of Fighters, e possui participações minoritárias em gigantes como Activision Blizzard, Capcom, Embracer Group, Nintendo e Take-Two. Além disso, o fundo controla a Savvy Game Group, que comprou empresas como a Scopely, desenvolvedora de jogos mobile como Pokémon Go, Pikmin Bloom e Monster Hunter Now.

O PIF afirma que os investimentos no setor de games fazem parte de um plano para diversificar a economia saudita, historicamente dependente da exportação de petróleo. No entanto, muitos analistas e críticos enxergam a jogada como uma forma de sportswashing — uma estratégia de queimar a imagem do país no cenário global por meio do soft power. O fundo já investiu pesado em ligas esportivas e outras formas de entretenimento, o que, segundo críticos, serve para desviar a atenção das violações de direitos humanos cometidas pelo regime, como a exploração de trabalhadores migrantes, a aplicação de leis anti-LGBTQ e a repressão a opositores políticos, incluindo o assassinato do jornalista Jamal Khashoggi, do The Washington Post.
A EA, por sua vez, tenta tranquilizar funcionários, jogadores e o mercado. Em comunicado público, a empresa afirmou que vai manter o controle criativo e seguir seu histórico de liberdade criativa e valores centrados no jogador sob os novos donos. Em um FAQ publicado pela companhia, a diretoria escreveu: O consórcio acredita em nossa visão, em nossa liderança e na força de nossas equipes. Eles estão investindo na EA porque acreditam que estamos em uma posição única para liderar o futuro do entretenimento. O CEO Andrew Wilson, que recebeu US$ 38 milhões no último ano — em parte graças ao sucesso de Battlefield 6, enquanto a empresa demitia desenvolvedores do jogo —, declarou: Nossos valores e nosso compromisso com os jogadores e fãs ao redor do mundo permanecem inalterados.

Apesar do discurso oficial, muitos funcionários da EA estão céticos. Um funcionário anônimo, em entrevista ao site Game File, afirmou: Andrew Wilson basicamente disse ‘vá se foder’ para todas as mulheres e funcionários LGBTQ da EA com este acordo. A preocupação é que a política conservadora do governo saudita possa influenciar o conteúdo dos jogos da empresa, especialmente franquias como The Sims, que sempre permitiu relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo dentro do jogo.
Os temores não são infundados. O PIF já demonstrou influência no desenvolvimento de jogos de suas subsidiárias. Um exemplo é Fatal Fury: City of the Wolves, jogo da SNK, que é controlada pelo fundo. O título inclui personagens convidados que só fazem sentido por causa das conexões sauditas: o jogador de futebol Cristiano Ronaldo e o DJ Salvatore Ganacci. Ambos não têm nenhuma relação com a franquia Fatal Fury, mas Ronaldo atua em uma liga financiada pelo PIF, e Ganacci já se apresentou em festivais e eventos na Arábia Saudita.
O PIF, no entanto, tem se mostrado um investidor volátil no setor de entretenimento. Recentemente, o fundo cortou o financiamento do LIV Golf, torneio de golfe que patrocinava, e vendeu um de seus times de futebol. Com a conclusão da compra, a EA se torna uma empresa privada, sem a obrigação de prestar contas a acionistas públicos. Mas, para muitos observadores, é difícil imaginar que essa nova configuração represente uma melhoria para a indústria de jogos e para os próprios jogadores.
Leia mais aqui em inglês: https://www.polygon.com/ea-owned-saudi-arabia-public-investment-fund-private-equity/.
Fonte: Polygon.
2026-08-04 20:28:00








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