O episódio 37 da Campanha 4 de Critical Role, chamado Death to Tyrants, colocou uma das questões mais espinhosas de Dungeons & Dragons na mesa: o que fazer quando um personagem importante está prestes a morrer de vez? A situação envolveu Wicander Wick Halovar, interpretado por Sam Riegel, alvo de uma tentativa de assassinato orquestrada pela própria família. O episódio inteiro gira em torno de quatro longos rounds de combate, com o personagem caindo diversas vezes enquanto os companheiros tentam salvá-lo.

O mestre Brennan Lee Mulligan tomou decisões que geraram discussão. Logo no início do combate, Wick foi atingido por uma magia Hold Person — lançada pela própria irmã —, que aplica a condição Paralisado. Isso faz com que qualquer ataque a até 1,5 metro de distância seja um acerto crítico. Quando um personagem já está caído, críticos causam duas falhas automáticas em testes de morte; três falhas significam morte definitiva. Na primeira vez que Wick foi atingido pela magia, Mulligan sugeriu que Riegel pudesse adiar seu turno — uma ação que não existe mais nas regras da 5ª edição nem na atualização de 2024, mas segue como regra da casa comum. A ideia era permitir que Halandil Fang, de Liam O’Brien, concedesse Inspiração de Bardo, somando um bônus d8 ao próximo teste de Sabedoria. O problema é que um personagem Paralisado também está Incapacitado, ou seja, não pode realizar ações, ações bônus ou reações. Não haveria, portanto, turno a adiar.

Mais adiante, o momento mais polêmico: Wick estava novamente morrendo e na última falha de morte. Riegel rolou, mesmo com Inspiração de Bardo extra, e falhou. Em vez de encerrar ali a história do personagem, Mulligan ofereceu uma segunda chance: rerrolar aquele teste com desvantagem (rolando duas vezes e ficando com o pior resultado) ou ajudar Tyranny, personagem de Whitney Moore, quebrando o contrato dela. Tyranny é uma demônia ligada a Wick por um contrato mágico; se ele morresse, o vínculo passaria para Yanessa, a líder maligna da casa Halovar. Riegel escolheu arriscar e passou no teste, mesmo com desvantagem — chance de sucesso em torno de 30%.

A comparação com outra morte da campanha é inevitável. No episódio 30, Here in the Dark, Teor Pridesire, de Travis Willingham, foi morto pelos mortos-vivos na Mansão Obrimus sem nenhum tipo de intervenção do mestre. A diferença de tratamento chamou atenção: Teor estava acompanhado de um NPC, seu irmão Cyd, e não de outro personagem de jogador, o que pode ter deixado Mulligan sem gancho narrativo semelhante ao de Wick e Tyranny.

No fim de Death to Tyrants, Wick caiu de novo após dois ataques. Ele bloqueou um com Shield, mas o outro o levou a pontos de vida negativos. Mulligan então perguntou se Riegel queria voltar atrás e desfazer o uso de Shield — ficando com duas falhas de morte — para libertar Tyranny do contrato. Riegel aceitou, o que permitiu que Tyranny usasse Aid em Wick e lhe desse vantagem no próximo teste de resistência, resultando em sua sobrevivência.

O episódio reacende um debate antigo entre mestres: equilibrar a justiça do jogo com o desejo de preservar a história e os personagens. Em D&D, com testes de morte e magias de ressurreição como Revivify, morrer de verdade ficou mais raro com o passar das edições. Se o grupo de Wick tivesse um único membro com Revivify preparado, todo o drama do episódio teria sido anulado na hora.

Visão Gamer: Para quem mestra ou joga D&D, o caso ilustra como decisões fora das regras podem adicionar stakes ou esvaziar a tensão. A escolha de Mulligan não foi apenas salvar o personagem: ela criou um custo narrativo e uma escolha difícil para o jogador. Mestres que enfrentam situações parecidas podem usar a mesma lógica — se for para interferir, que a intervenção traga novas consequências para a mesa. E vale sempre conversar com o grupo sobre como cada um prefere lidar com a morte de personagens antes que ela bata na porta.
Leia mais aqui em inglês: https://www.polygon.com/critical-role-campaign-4-episode-37-wicander-death-dnd-dungeons-dragons/.
Fonte: Polygon.
2026-10-09 11:00:00








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