Em outubro de 1989, quem abriu o jornal na semana anterior ao Halloween encontrou um Garfield bem diferente do habitual. Em vez dos layouts chapados e das piadas sobre café e preguiça, Jim Davis entregou quadros com fundos soturnos e ângulos inclinados: o gato laranja acorda e percebe que está sozinho em uma casa vazia. Jon e Odie sumiram, e o imóvel parece abandonado há anos — como se os dois tivessem simplesmente ido embora em algum momento distante. A dúvida que fica é se Garfield foi deixado para trás de propósito, se virou fantasma ou se aquilo é algum tipo de universo pós-apocalíptico da tirinha.

O arco ficou conhecido pelo apelido de Alone e ganhou força justamente pelo contraste. A tira de 28 de outubro resume o tom: depois de anos tomando a vida como garantida, Garfield é abalado por uma visão horripilante do processo inevitável chamado tempo, e sua única arma é a negação. É um desvio surreal dentro de uma série que, na maior parte do tempo, aposta no cotidiano e no humor simples.

A única declaração pública de Davis sobre o arco aparece, segundo o material, na coletânea de aniversário 20 Years & Still Kicking, de 1998. O autor contou que teve a ideia durante uma sessão de escrita para o Halloween e queria assustar as pessoas. A pergunta que ele se fez foi o que as pessoas mais temem: ficar sozinhas. Davis disse que levou o conceito até a conclusão lógica e recebeu muitas respostas de leitores, com reações que iam de Right on! a Isso não é uma tendência, é?.

Vale contextualizar: Davis sempre foi honesto sobre Garfield ter nascido como um empreendimento comercial, mas de vez em quando deixa escapar um lado mais estranho. Exemplos disso estão em materiais como a antologia His 9 Lives, de 1984, que mistura história de detetive em prosa, paródia de ficção científica, sequência de perseguição e um conto de terror que funciona bem, além do especial animado Garfield in the Rough, que termina com uma briga de verdade entre o gato e uma pantera selvagem.

Mesmo assim, Alone segue como um caso à parte: uma incursão curta no horror surreal que faz Garfield parecer uma tira completamente diferente. E, a cada poucos anos, novos leitores descobrem esse arco e o ciclo recomeça.

Visão Gamer: para quem acompanha cultura pop e quadrinhos, Alone é um exemplo de como uma obra comercial de longa duração pode testar limites por um período curtíssimo sem abandonar a identidade. É o tipo de experimento que rende descobertas tardias e mantém o material relevante décadas depois.
Leia mais aqui em inglês: https://www.polygon.com/garfield-alone/.
Fonte: Polygon.
2026-10-17 09:00:00








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