Whalefall, adaptação do livro de Daniel Kraus publicado em 2023, chega aos cinemas em 16 de outubro com uma premissa que chama atenção: um mergulhador é engolido por um cachalote e precisa usar todo o conhecimento que tem para sobreviver dentro do animal. O longa é dirigido por Brian Duffield, que também assina o roteiro ao lado de Kraus, e traz Austin Abrams no papel de Jay Gardiner e Josh Brolin como seu pai, Mitt.
A comparação com Perdido em Marte é inevitável. O livro de Andy Weir, adaptado por Ridley Scott e Drew Goddard, virou referência de sobrevivência solo com humor, otimismo e tensão bem calibrada. Whalefall tenta seguir o mesmo caminho, mas, segundo a crítica especializada, não consegue fazer com que os riscos físicos ou emocionais pareçam reais.

A trama acompanha Jay, filho de um mergulhador profissional que passou a vida inteira repetindo lições sobre segurança no mergulho. Mesmo assim, ele ignora os avisos do amigo do pai, Hewey (John Ortiz), e da Guarda Costeira para fazer um mergulho solo de madrugada. Ninguém sabe que ele sumiu quando acaba lutando contra uma lula gigante que, por sua vez, é engolida por uma baleia. A imprudência de Jay é sintoma do luto: o filme abre com Mitt se jogando ao mar com pesos para morrer no oceano que amava, em vez de definhar na cama com mesotelioma. A cena é apontada como a mais emocionante do longa, sustentada pela respiração rouca de Brolin.
Um ano depois, Jay ainda não leu a carta que o pai deixou e não consegue visitar o cemitério onde a família enterrou um caixão vazio. Mesmo com Mitt tendo sido claro sobre o desejo de alimentar o oceano como uma carcaça de baleia — o tal whalefall do título —, Jay acredita que recuperar os restos do pai vai consertar as coisas.

A relação conturbada entre pai e filho se desenrola em flashbacks que encaixam perfeitamente em cada crise enfrentada por Jay. Quando o pânico o faz gastar oxigênio, ele lembra da vez em que o pai ensinou a fazer um tanque durar. Depois, Mitt filosofa sobre como o oceano provê enquanto Jay junta objetos engolidos pela baleia para improvisar uma fuga. As situações e lições vão ficando cada vez mais absurdas ao longo do filme.
A produção investiu em sets práticos enormes para dar realismo à luta claustrofóbica e gosmenta de Jay, mas, ainda assim, a crítica aponta dificuldade em levar a situação a sério. Em certo momento, ele tenta escalar o estômago da baleia usando uma água-viva bioluminescente como lanterna, pedindo desculpas ao animal sem cérebro por maltratá-lo. Esse tom manicômio funciona em adaptações de videogame como Resident Evil, mas soa deslocado em um filme que se propõe a ser uma história dolorosa sobre perda.

Brolin tem experiência de sobra interpretando pais problemáticos, mas, mesmo com os flashbacks explicando anatomia e comportamento de baleias, a relação dele com a família nunca se desenvolve por completo. Mitt afastou Jay por pressioná-lo demais a aprender sobre o mar, mas nunca parece ter mergulhado com a esposa ou as duas filhas. O roteiro não confronta o sexismo dessa dinâmica nem o ressentimento que os irmãos de Jay poderiam sentir pelo tratamento especial. As mulheres da família têm uma visão idealizada de Mitt e nunca reconhecem o quanto ele podia ser abusivo.
Whalefall até oferece instruções detalhadas de como não morrer mergulhando, mas quase não explica por que esses personagens querem fazer isso, o que torna ainda mais difícil simpatizar com Mitt. Existem momentos de beleza silenciosa, como a baleia deslizando por águas escuras ou Jay nadando entre peixes coloridos na floresta de kelp da Califórnia. Uma única cena de Mitt e Jay curtindo um mergulho junto ajudaria a explorar a relação e o mundo que Mitt reverenciava.

A metáfora nada sutil é que Mitt é a baleia que engoliu Jay. Ele precisou escapar de casa para não ser esmagado pelo peso das expectativas do pai, mas agora está se afogando em luto e culpa. Talvez Whalefall funcionasse melhor como um conto de fadas abstrato, uma história clássica de amadurecimento em que um filho entende o valor da sabedoria paterna só depois da morte do pai. Mas tentar dar peso real a uma premissa muito boba, enquanto usa flashbacks de forma desajeitada e repetitiva para revelar informações-chave, tira de Whalefall qualquer carga emocional que a história poderia ter.
O filme compartilha parte da estrutura e do enredo de Perdido em Marte, mas, em vez de decolar, parece fadado a afundar nas bilheterias.
Visão Gamer: Para quem acompanha adaptações de sobrevivência, Whalefall serve como um exemplo de como a fórmula de Perdido em Marte é difícil de replicar. A diferença entre usar sets práticos e efeitos visuais para criar tensão real e apenas empilhar situações absurdas com flashbacks explicativos é o que separa um thriller eficiente de um filme que não convence. Quem for conferir nos cinemas a partir de 16 de outubro pode observar como a produção tenta equilibrar momentos de beleza visual com uma narrativa que, segundo a crítica, não sustenta o peso dramático que propõe.
Leia mais aqui em inglês: https://www.polygon.com/whalefall-review/.
Fonte: Polygon.
2026-10-14 16:00:00








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