Muito antes de o GTA Online se tornar o fenômeno que é hoje, a Rockstar Games já havia plantado as sementes do caos multiplayer em Grand Theft Auto 4. Em uma época em que o modo online de GTA 5 ainda nem existia, o multiplayer de GTA 4 oferecia uma experiência bem mais simples, mas igualmente marcante, com corridas de caminhões, lança-foguetes e muita confusão entre jogadores. A edição de fevereiro de 2009 da PC Gamer UK (número 197) trouxe um artigo especial de Kieron Gillen, que explorava exatamente esse lado do jogo, destacando o que ele chamou de caos glorioso — algo que nunca tinha sido visto antes em um GTA.
O texto de Gillen começa com uma cena que define bem o tom do multiplayer de GTA 4: uma corrida com 32 caminhões, dos quais cerca de 25 eram carros de bombeiro. O autor descreve sua reação inicial — piscar, rir alto e tentar descobrir como acionar a mangueira de incêndio. O resultado, como ele mesmo diz, era uma bagunça gloriosa, um caos que não se comparava a nada que os jogadores tinham experimentado até então. Essa liberdade absurda, proporcionada pela interação entre os jogadores, era o grande diferencial do modo online de GTA 4.

O artigo também ressalta um segredo conhecido entre os fãs da série: se você quer jogar um GTA da melhor forma possível, a versão para PC é sempre a escolha certa — desde que você tenha paciência para esperar alguns meses. Isso já valia desde GTA 3, quando o hardware mais potente dos PCs permitia uma experiência superior, com cidades mais bem trabalhadas, trilhas sonoras personalizadas e até uma jogabilidade de tiro mais refinada. Com a chegada da nova geração de consoles, o PC se destacava ainda mais, oferecendo opções gráficas que só se tornariam práticas de usar quando os computadores evoluíssem, além de um aumento significativo no limite de jogadores: 32 no PC contra 16 nos consoles.
A adição do multiplayer em si já era um grande avanço para a série, que até então dependia de mods como o Multitheft Auto para oferecer uma experiência online. Agora, o modo estava integrado ao jogo, acessível a todos. E, segundo Gillen, a presença de outros jogadores mudava completamente o tom de GTA 4. No modo singleplayer, o jogo é mais sério e contido, mas quando você está com amigos, toda aquela seriedade vai para o espaço. A interação entre pessoas reais elevava o nível de estupidez a um patamar impressionante, e se os jogadores não fossem naturalmente caóticos, as regras podiam ser ajustadas para incentivar a loucura.

Um dos exemplos citados no artigo é o modo Turf War, que normalmente é um jogo de controle de território. Limitando as armas a apenas lança-foguetes, a experiência se transformava completamente, em uma comparação bem-humorada com armar todos os jovens perigosos de Londres com RPGs. Essa mudança também destacava as sutilezas do sistema de controle: os foguetes eram poderosos, mas lentos, exigindo mira cuidadosa. Mesmo assim, dirigir um carro em meio a uma saraivada de projéteis explosivos era uma emoção visceral e pouco racional — mais um exemplo do caos que o multiplayer proporcionava.
As opções de personalização eram o coração do multiplayer de GTA 4. Embora fosse possível jogar nas três ilhas de Liberty City, na prática os jogadores escolhiam áreas fechadas, algumas bem pequenas, como as penínsulas da ilha central. Cada modo de jogo tinha suas particularidades: nos modos Mafiya, por exemplo, os jogadores tentavam cumprir contratos de crimes organizados para ganhar recompensas. Até o deathmatch tradicional podia ser ajustado para incluir a coleta de dinheiro dos corpos caídos, adicionando uma camada estratégica à simples contagem de abates.

Havia também opções de mundo, como a presença de pedestres e tráfego, que geralmente eram desativadas para garantir que partidas maiores rodassem sem problemas de desempenho — o artigo menciona que a taxa de quadros chegava a sofrer quando os 32 caminhões de bombeiro se alinhavam na linha de largada. As corridas, aliás, eram um dos melhores exemplos do que o multiplayer competitivo de GTA 4 tinha a oferecer. Todos começavam com veículos da mesma classe, mas era improvável que terminassem com eles. Com itens de saúde espalhados pelo caminho, era mais comum morrer e voltar em uma lambreta, como o próprio Gillen relata: ele terminou a corrida de caminhões de bombeiro em uma moped, ultrapassando um caminhão por dentro e atirando com uma Uzi enquanto o adversário tentava, sem sucesso, fechá-lo.
Conforme os jogadores mais atrasados percebiam que não tinham chance de vencer, eles começavam a brigar entre si ou a criar barricadas com destroços, transformando a corrida em um simulador de sobrevivência ao estilo Mad Max. O resultado era hilário. O multiplayer de GTA 4 funcionava bem nesse equilíbrio entre o sério e o absurdo: mesmo nos modos mais convencionais, como o deathmatch em equipe, havia uma colisão fascinante entre personagens que se moviam e lutavam como figurantes de um filme de Michael Mann e momentos dignos de uma versão gangster dos Keystone Cops — carros cheios de bandidos pendurados nas janelas, atirando de forma otimista antes de cair de uma ponte. No fim, o que os outros jogadores adicionavam ao jogo era, simplesmente, humanidade.
Embora o modo multiplayer oficial de GTA 4 tenha sido desligado em 2020, ainda é possível jogá-lo hoje por meio do GTA Connected, uma plataforma que mantém o modo vivo. E, nos consoles, o multiplayer continua ativo até os dias de hoje. Enquanto o GTA Online se tornou um gigante que gera bilhões de dólares, com assaltos elaborados, impérios criminosos e uma infinidade de missões, olhar para trás e ver as origens desse fenômeno no modo online de GTA 4 é um lembrete de que, às vezes, a diversão mais pura está no caos simples e descompromissado de 32 jogadores em uma corrida de caminhões de bombeiro.
Leia mais aqui em inglês: https://www.pcgamer.com/games/grand-theft-auto/before-grand-theft-auto-online-gta-4s-multiplayer-added-glorious-chaos-to-the-open-world-sandbox/.
Fonte: PC Gamer.
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2026-08-14 23:11:00








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