A primeira temporada de Lanterns chega à HBO e HBO Max neste domingo, 16 de agosto, com a missão de provar que o novo universo cinematográfico da DC pode prosperar mesmo quando James Gunn não está diretamente no comando. E, pelo menos no episódio de estreia, a série cumpre bem esse papel, entregando uma mistura surpreendente de drama de super-herói com investigação de assassinato no estilo True Detective e Slow Horses.
A produção é uma das primeiras grandes apostas do DCU de James Gunn e Peter Safran que não é dirigida pessoalmente por Gunn. Enquanto projetos como Creature Commandos, Superman e Peacemaker mostraram que Gunn tem uma boa pegada com a marca DC, a dúvida era se o universo conseguiria se sustentar quando outros criadores assumissem as rédeas. Supergirl, por exemplo, levantou questionamentos sobre a afirmação de Gunn de que roteiros fortes e visões artísticas claras seriam o motor dessa nova fase. Nesse cenário, Lanterns surge como uma vitória necessária — e o primeiro episódio indica que a série está à altura do desafio.
Antes da estreia, havia uma preocupação legítima por parte dos fãs: como uma franquia tão fantástica quanto a dos Lanternas Verdes se sairia em uma trama de assassinato ambientada na Terra, com os elementos cósmicos reduzidos? O trailer inicial não ajudou a acalmar os ânimos, e os comentários do cocriador Damon Lindelof geraram polêmica, a ponto de Grant Morrison, uma autoridade nos quadrinhos da DC, rebater publicamente. A campanha de marketing da DC e da Warner não fez muitos favores à série, mas, como se costuma dizer, a prova está no resultado.
E o resultado é exatamente o que os trailers e prévias indicavam: Lanterns é tanto um mistério de assassinato no estilo True Detective e Slow Horses quanto um drama de super-herói — e a equipe criativa inclui veteranos dessas duas séries. Quem espera ver o lado cósmico do mito dos Lanternas Verdes em todo o seu esplendor pode se decepcionar. O uniforme de Hal Jordan, interpretado por Kyle Chandler, raramente aparece, e quando surge, é uma versão feia e desajeitada que provavelmente é melhor ficar escondida. A série tem uma estética visual agradável, mas no estilo mais contido e realista de True Detective, sem depender de efeitos especiais mirabolantes.
Para os puristas que querem um espetáculo cósmico fiel aos quadrinhos, com muitos anéis e aventuras espaciais, Lanterns pode frustrar. Mas para quem estiver disposto a abandonar preconceitos e aceitar a série pelo que ela é, essa combinação inusitada de aventura de super-herói com investigação terrestre funciona surpreendentemente bem. Grande parte desse sucesso vem da química entre Chandler e Aaron Pierre, que interpreta John Stewart, o novato que Hal é obrigado a treinar.
A relação entre os dois é o coração do episódio. Hal Jordan nunca foi o membro mais amigável ou equilibrado da Liga da Justiça, mas aqui ele está francamente hostil e distante com seu pupilo. Enquanto a trama começa a montar uma investigação urgente na remota cidade de Rushville, Nebraska, fica claro que o verdadeiro conflito é entre Hal e John. Hal é um veterano arrogante e desgastado, desconfiado de que seus superiores espaciais querem substituí-lo. John é um ex-fuzileiro naval que deseja muito o anel, mas tem pouca paciência para as manias do veterano. O choque entre os dois é intenso, e a série aposta forte nessa dinâmica.
A escolha do elenco é um dos pontos mais fortes da estreia. Chandler pode não ser o nome que viria à cabeça de muitos como Hal Jordan, e nem era a primeira escolha da DC, mas sua idade e experiência se encaixam perfeitamente nessa versão do personagem, que está ativo no DCU há décadas e carrega o peso desses anos. Chandler transmite com precisão a mistura de exasperação, paranoia e excesso de confiança que define o Hal Jordan do DCU. Ele não quer treinar o homem que pode roubar seu lugar, e deixa isso claro em cada interação com John.
Aaron Pierre, por sua vez, traz um carisma discreto e direto que contrasta bem com a bravata de Hal. John é quieto, composto e estoico — características que poderiam torná-lo um personagem chato nas mãos erradas, mas Pierre consegue dar nuances suficientes para que ele nunca pareça monótono ou subdesenvolvido. Ele é reservado, mas por baixo dessa superfície há um desejo ardente de provar seu valor, mesmo que isso signifique aturar as provocações constantes de seu superior. O episódio ainda aborda, de forma sutil, as tensões raciais dessa relação, em uma cena em que John liga para o pai e ouve que homens brancos como Hal Jordan têm o privilégio de serem excêntricos e difíceis, enquanto um homem negro precisa se esforçar muito mais para provar que merece o cargo mais exclusivo da polícia do universo.
A trama também apresenta outros personagens importantes. Kelly Macdonald interpreta Kerry, a xerife de Rushville, que não tem paciência para as intromissões de Hal e cria com ele uma relação de rivalidade e flerte unilateral. Garret Dillahunt vive William Macon, um cowboy e magnata do gado local que parece encantador, mas esconde um lado perturbador e ligações obscuras com o mistério. Poorna Jagannathan é Zoe, uma moradora de Rushville que rapidamente se aproxima de John, permitindo explorar facetas do personagem que não aparecem na interação com Hal. A cidade é cheia de personalidades interessantes, o que promete bons desenvolvimentos nos próximos sete episódios.
O mistério do assassinato em si, por enquanto, funciona mais como um catalisador da trama do que como o grande atrativo. O episódio se concentra na luta de Hal para convencer todos, inclusive John, de que os corpos encontrados têm ligação extraterrestre. Mas o que realmente brilha são os personagens e seus conflitos. A estreia guarda uma grande revelação para o final, uma virada que deve gerar tanta controvérsia quanto qualquer outra coisa na série até agora, mas que também mostra que Lanterns tem ambições maiores do que apenas um drama policial com super-heróis. Se a ideia de Lanternas Verdes à paisana discutindo aos gritos com caubóis não for suficiente para atrair o público, essa reviravolta pode ser o gancho que faltava.
Leia mais aqui em inglês: https://www.ign.com/articles/lanterns-series-premiere-review-restoring-faith-in-james-gunns-dcu.
Fonte: IGN.
IGN Articles.
2026-08-14 16:00:00








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