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A chuva constante, as ruas encharcadas e o brilho dos neon refletidos nas poças são elementos tão marcantes do cyberpunk quanto os implantes cibernéticos e as megacorporações. Mas será que Cyberpunk 2077, o aguardado jogo da CD Projekt Red, está à altura dessa tradição? A pergunta pode parecer estranha, mas a ‘molhabilidade’ é um tema central na estética do gênero, e a análise de como o jogo lida com o clima é essencial para entender sua fidelidade às obras que o inspiraram.
A origem dessa obsessão por clima úmido e selvagem remonta a clássicos do cinema, especialmente Blade Runner, de Ridley Scott, lançado em 1982. O filme, baseado no romance de Philip K. Dick, estabeleceu um visual de cidade futurista onde a chuva é quase um personagem, criando uma atmosfera opressiva e melancólica que define o tom da narrativa. Essa estética foi tão influente que se tornou um dos pilares do cyberpunk, sendo replicada em obras como Ghost in the Shell, Akira e Neuromancer, de William Gibson.
A pergunta que se coloca, então, é: Cyberpunk 2077, que se inspira diretamente nesse legado, consegue capturar a mesma sensação de um mundo permanentemente encharcado? A resposta, como tudo no jogo, é complexa. Night City, a metrópole onde se passa a história, tem um sistema de clima dinâmico, com ciclos de dia e noite, e eventos climáticos que incluem chuva, neblina e tempestades de areia. Mas a frequência e a intensidade desses eventos podem não corresponder à expectativa dos fãs mais puristas do gênero.
A análise da ‘molhabilidade’ de Cyberpunk 2077 vai além da simples presença de chuva. Envolve como o jogo utiliza o clima para contar histórias, criar atmosfera e afetar a jogabilidade. Em Blade Runner, a chuva não é apenas um efeito visual; ela contribui para a sensação de isolamento e decadência. Em Cyberpunk 2077, a chuva pode ser bela, mas muitas vezes parece mais um espetáculo técnico do que uma ferramenta narrativa. O jogo mostra a tecnologia de rastreamento de raios (ray tracing) em todo o seu esplendor, com reflexos impressionantes nas poças e nas superfícies molhadas, mas a chuva raramente influencia as missões ou o comportamento dos personagens.
A discussão sobre a ‘molhabilidade’ do cyberpunk também levanta questões sobre a própria definição do gênero. Seria a chuva um elemento essencial, ou apenas um clichê visual? Alguns argumentam que a chuva constante é uma metáfora para a poluição e a degradação ambiental, enquanto outros a veem como uma forma de criar contraste com a tecnologia limpa e fria. Em Cyberpunk 2077, a cidade é dividida em seis distritos, cada um com sua própria atmosfera. Em áreas como Watson, a chuva é mais frequente, reforçando a sensação de decadência, enquanto em Westbrook, o distrito mais rico, o clima tende a ser mais limpo, refletindo a separação social.
A comparação com Blade Runner é inevitável, mas Cyberpunk 2077 também se inspira em outras fontes. O jogo é baseado no RPG de mesa Cyberpunk 2020, criado por Mike Pondsmith, que já apresentava um mundo com clima instável e chuvas ácidas. Essa herança é visível em alguns momentos do jogo, especialmente nas áreas mais pobres, onde a chuva parece mais pesada e suja. No entanto, o jogo não alcança a constância do filme de Scott, que mantém a chuva como um elemento quase constante, criando uma imersão total.
Outro ponto a considerar é a reação da comunidade. Desde o lançamento, em dezembro de 2020, muitos jogadores têm compartilhado capturas de tela e vídeos destacando os momentos mais chuvosos do jogo, elogiando a beleza visual. Outros, porém, reclamam que a chuva é rara demais, e que o jogo perde oportunidades de usar o clima para criar tensão. A CD Projekt Red já lançou várias atualizações, incluindo melhorias no clima e nos efeitos de água, mas a discussão sobre se o jogo é ‘molhado o suficiente’ continua viva.
A jornalista Simone de Rochefort, da Polygon, assina a análise original que levanta essa questão, examinando a ‘molhabilidade’ do cyberpunk como um todo e avaliando se Cyberpunk 2077 está à altura do legado estabelecido por Blade Runner. A análise é parte de uma série de vídeos que exploram aspectos técnicos e estéticos do jogo, e tem gerado debates entre fãs e críticos.
No fim, a resposta à pergunta ‘Cyberpunk 2077 é molhado o suficiente?’ pode ser subjetiva. Para alguns, a chuva é um elemento essencial para a imersão no mundo cyberpunk, e o jogo poderia se beneficiar de mais eventos climáticos. Para outros, a variedade de climas e a beleza dos reflexos já são suficientes para capturar a essência do gênero. O que é inegável é que a discussão sobre a ‘molhabilidade’ revela o quanto a estética do cyberpunk é importante para os fãs, e como um pequeno detalhe como a chuva pode definir a experiência de um jogo.
Em última análise, Cyberpunk 2077 é um jogo que se esforça para homenagear o cyberpunk em todos os aspectos, desde a narrativa até o design de mundo. A chuva pode não ser tão constante quanto em Blade Runner, mas quando aparece, é de tirar o fôlego. E talvez seja essa a abordagem mais moderna: não copiar o passado, mas reinterpretá-lo com as ferramentas do presente. A pergunta, então, não é se o jogo é ‘molhado o suficiente’, mas se ele consegue usar a chuva para criar momentos memoráveis. E nisso, ele certamente consegue.
A discussão sobre o clima em Cyberpunk 2077 também abre espaço para pensar sobre o futuro do gênero. Com os avanços em tecnologia de jogos, como o ray tracing em tempo real, os desenvolvedores têm mais ferramentas do que nunca para criar atmosferas imersivas. A chuva, que antes era um efeito simples, agora pode ser simulada com física realista, com gotas que respingam em superfícies e criam ondulações. Isso permite que os jogos explorem a ‘molhabilidade’ de maneiras novas e criativas, indo além do que o cinema podia fazer.
Portanto, a análise de Simone de Rochefort não é apenas sobre um jogo, mas sobre a evolução de um gênero. Cyberpunk 2077, com todos os seus defeitos e qualidades, é um marco nessa evolução, e a discussão sobre sua ‘molhabilidade’ é uma prova do quanto os fãs se importam com os detalhes que fazem um mundo virtual parecer real. E, no fim, é isso que importa: a capacidade de um jogo de nos transportar para um universo tão rico e complexo quanto o cyberpunk, esteja ele chovendo ou não.
Leia mais aqui em inglês: https://www.polygon.com/video/is-cyberpunk-2077-wet-enough/.
Fonte: Polygon.
2026-08-14 12:07:00








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