Os videogames sempre tiveram dificuldade em lidar com o tema do romance. Explosões, dragões e invasões alienígenas? Isso eles dominam. Mas a linguagem do amor sempre foi mais complicada. Mesmo assim, os desenvolvedores, especialmente os de RPG, não desistiram, e hoje a ausência de romance em um jogo chama mais atenção do que a sua presença. Essa é uma herança da BioWare, que não foi a primeira, mas foi a responsável por consolidar os romances em videogames — principalmente os romances com companheiros de equipe — a partir de Baldur’s Gate 2. Desde então, o recurso se tornou tão comum que até jogos que não são exatamente RPGs, como Star Wars: Zero Company, precisam responder à pergunta: afinal, dá para se envolver com os colegas de equipe?

Mas será que esse recurso é realmente essencial em um RPG? Será que faz sentido? Se a discussão se limitar ao modelo da BioWare, a resposta seria um sonoro não. No entanto, há ressalvas importantes. A BioWare criou alguns relacionamentos genuinamente bons ao longo das últimas décadas. Em Dragon Age, por exemplo, a relação entre o Guardião Cinzento e Morrigan é crucial para a história geral da série, e é por meio dela que o jogador conhece uma das personagens mais fechadas e interessantes de Origins. Mass Effect também faz coisas interessantes com seus companheiros romanceáveis. A relação com Liara, por exemplo, começa de forma um pouco estranha: no contexto de sua espécie, os asari, ela é efetivamente uma criança, apesar de ter mais de 100 anos, o que é evidenciado por sua inocência e ingenuidade. Já em Mass Effect 2, ela passou por muita coisa e se mostra mais confiante e madura, e mesmo aparecendo apenas na DLC, a relação parece muito mais nuançada.

A trilogia de Shepard também se beneficia por ter o mesmo protagonista ao longo de três jogos, o que permite desenvolver um relacionamento através de três jogos distintos e DLCs. Há muito espaço para explorar o romance, então. Mas a série nunca consegue escapar totalmente da abordagem formulada da BioWare: algumas conversas, declarações de afeto e, pouco antes do final, uma cena de sexo. Os companheiros raramente têm agência — é apenas mais uma fantasia de poder.

Essa, no entanto, não é a única abordagem possível. Em Baldur’s Gate 3, a Larian explora diferentes tipos de relacionamento com muito mais profundidade, desde o puramente sexual até o extremamente romântico. É um jogo incrivelmente sexual, mas ao mesmo tempo não trata o sexo como uma recompensa a ser conquistada. Dependendo do personagem, o jogador pode acabar tendo um encontro casual já no primeiro ato. A Larian também usou o romance para enriquecer as histórias dos companheiros. Em uma das jogatinas do autor do texto, o relacionamento com Karlach elevou o arco dela e fez os momentos importantes terem mais impacto. Em Baldur’s Gate 3, os relacionamentos também são testados, às vezes, e podem ser fontes de atrito dentro do grupo. E eles estão entrelaçados ao longo de todo o jogo, em vez de ficarem restritos a algumas conversas e uma cena de sexo antes do clímax.

Essa abordagem, infelizmente, é a exceção, não a regra. E mesmo quando é bem feita, ainda pode cair em realização de desejos. Um exemplo é a decisão de alguns jogos — incluindo Baldur’s Gate 3 — de fazer com que todos os personagens sejam efetivamente pansexuais, para garantir que o jogador possa se envolver com quem quiser. É ótimo que isso permita mais romances queer, mas não sei se isso realmente conta se todos os companheiros são playersexuais. O romance se tornou uma caixa a ser marcada, cujo único propósito é agradar aos jogadores que, compreensivelmente, passaram a esperar por isso — mas escolher importantes pontos da história e mecânicas apenas porque se tornaram convencionais só serve para homogeneizar os RPGs.

O autor do texto, Fraser Brown, admite que costumava ser a favor dos romances com companheiros e celebrou a sexualidade de Baldur’s Gate 3 em 2023. Ele ainda acha que o jogo lidou bem com o tema, mas ultimamente tem pulado os romances em seus RPGs, a menos que o jogo esteja genuinamente tentando fazer algo interessante com o recurso — o que raramente acontece. Ele jogou 150 horas de Rogue Trader e não sentiu nenhum FOMO ao rejeitar toda a tripulação. Já em Dragon Age: The Veilguard, quando precisou embarcar em um relacionamento para ajudar a equipe de guias, passou a maior parte do tempo se encolhendo de vergonha — mesmo tendo romanceado a única personagem carismática do jogo, Lace Harding.

Há também quem veja o romance de forma mais leve. Fable, por exemplo, trata o casamento de forma hilária: o jogador pode se casar com todos os personagens, abraçar a poligamia. O autor respeita como a série torna o sistema puramente mecânico, sem uma relação real, apenas um bônus estranho. Não há uma crítica ao casamento, é apenas diversão. E essa é uma ótima razão para incluir esse tipo de sistema: ele serve a um propósito claro, além de tentar atender a expectativas estranhas.
No fim, a questão permanece: os RPGs realmente precisam de companheiros romanceáveis? Para Fraser Brown, a resposta é não, a menos que o jogo faça algo genuinamente interessante com o recurso. Se não consegue fazer um bom romance, é difícil fazer bons personagens — mas isso não significa que todo RPG deva incluir romances. Às vezes, há boas razões para não incluir, e o fato de alguns jogos errarem não impede que o romance seja uma ferramenta vital para as histórias de RPG em geral, embora muitas vezes negligenciada. E você, leitor, sente falta de romances nos seus RPGs ou já está farto deles?
Leia mais aqui em inglês: https://www.pcgamer.com/games/rpg/the-great-rpg-debate-do-rpgs-really-need-romanceable-companions/.
Fonte: PC Gamer.
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2026-08-01 16:00:00








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