Há vinte anos, quando o terceiro filme da franquia Velozes e Furiosos estreou, muitos fãs acreditavam que a série já tinha dado o que tinha que dar. Dirigido por Justin Lin e escrito por Chris Morgan, ‘Velozes e Furiosos: Desafio em Tóquio’ abandonou os personagens principais estabelecidos, mudou o cenário para o Japão e apresentou um elenco totalmente novo liderado por um adolescente (que aparentava ter 20 anos) aprendendo a arte do drift. A crítica especializada tratou o longa como uma sequência desesperada, destinada às prateleiras de liquidação. E, na época, estavam certos. Mas, olhando em retrospecto, ‘Desafio em Tóquio’ pode ter sido o filme mais importante que a franquia já produziu — e isso se deve, em grande parte, a um cameo de menos de um minuto de Vin Diesel nos momentos finais.
O que chama a atenção imediatamente é como ‘Desafio em Tóquio’ difere drasticamente dos filmes que vieram depois. Muito antes de a franquia evoluir para thrillers de espionagem globais e filmes de assalto com acrobacias sobre-humanas e veículos viajando para o espaço, Justin Lin — que depois dirigiria mais cinco filmes da série — ainda se apoiava no que tornou ‘The Fast and the Furious’ especial. O coração do filme é a própria corrida de drift, e Lin trata a cultura automotiva japonesa com um entusiasmo que permanece contagiante até hoje. As corridas de rua eletrizantes são a atração principal e, apesar da premissa forçada sobre um adolescente americano problemático se mudando para Tóquio, os riscos são surpreendentemente pé no chão.
O angustiado Sean Boswell (Lucas Black) é tão imprudente ao volante que sua mãe o envia para Tóquio para morar com o pai, que serve na Marinha, a fim de evitar uma possível prisão. Sean não está atrás de um dispositivo de hack onipresente, não quer roubar um cartel de drogas nem salvar o mundo. Ele é apenas um garoto tentando encontrar seu lugar em um cenário automotivo estrangeiro. Essa simplicidade dá a ‘Desafio em Tóquio’ seu charme — algo que os filmes posteriores abandonam em favor do espetáculo. É uma história de amadurecimento envolta em um filme de corrida de rua, repleta de amizades, interesses amorosos, rivalidades e cultura tuner suficiente para encher um centro de convenções — que você pode até ver pessoalmente no Peterson Automotive Museum, em Los Angeles.
‘Desafio em Tóquio’ também apresentou um dos personagens mais queridos da franquia: Han (Sung Kang), que até hoje permanece impecavelmente cool. Seja orientando Sean no drift, navegando cuidadosamente pelo submundo criminoso de Tóquio ou simplesmente petiscando, Han sempre rouba a cena. Outros membros do elenco de apoio ajudam a dar ao filme uma personalidade distinta. Um jovem Bow Wow fornece alívio cômico como Twinkie, um ‘filho de militar’ que dirige uma Volkswagen Touran 2005 com tema do Hulk. As conexões com a Yakuza, lideradas principalmente pelo ‘Rei do Drift’ (Brian Tee), adicionam uma aresta que separa o filme dos cenários suburbanos da Califórnia dos filmes anteriores. Conforme a trama avança, há a sensação de que Sean se envolveu em algo muito maior do que ele mesmo, e esse pano de fundo criminoso ajuda a tornar Tóquio perigosa sem transformar o filme em um espetáculo de ação completo.

‘Desafio em Tóquio’ também se destaca de seus antecessores e sucessores por sua adesão estrita à autenticidade. Em vez de depender pesadamente de CGI, Lin confia extensivamente em acrobacias práticas, trazendo lendas reais do drift como Rhys Millen e o ‘Rei do Drift’ Keiichi Tsuchiya — também conhecido por seu trabalho em ‘Initial D’ — para cuidar de grande parte da ação ao volante. O resultado é uma série de sequências de corrida que ainda hoje parecem viscerais e perigosas, com cada curva, deslize e quase acidente carregando um peso que muitas entradas posteriores abandonariam em favor de cenas cada vez mais absurdas. É por isso que, mesmo duas décadas depois, ‘Desafio em Tóquio’ é frequentemente visto como o filme de corrida mais puro de toda a franquia.
Mas ‘Velozes e Furiosos’ provavelmente não teria se tornado a franquia que é hoje sem alguns segundos de tela concedidos a Dominic Toretto (Vin Diesel) no final do filme. Quando Dom aparece para cumprimentar Sean em seu agora icônico Plymouth Road Runner 1970, parece uma participação especial divertida e surpreendente. Na realidade, essa breve aparição mudaria a trajetória de toda a série. Diesel filmou a cena de graça, negociando em troca os direitos de propriedade ligados à franquia ‘As Crônicas de Riddick’, uma história que ele estava mais interessado em continuar na época. No papel, era um acordo comercial focado em outra propriedade. A ironia é que o cameo acabou se tornando a cola narrativa que manteve o futuro de ‘Velozes e Furiosos’ unido pelos próximos 20 anos.
Sem aquela cena, ‘Desafio em Tóquio’ poderia ter permanecido um experimento isolado. Em vez disso, a aparição de Dom conectou a história de Sean à franquia maior e transformou Han em um personagem cujo legado se espalharia por várias sequências. A série logo reuniria seu elenco original, traria rostos familiares de volta e eventualmente se tornaria um gigante de bilhões de dólares. Quando ‘Velozes e Furiosos 5: Operação Rio’ chegou (também dirigido por Lin), a transformação estava completa.
É isso que torna ‘Desafio em Tóquio’ um filme tão fascinante de revisitar 20 anos depois. Ele é tanto o fim de uma era quanto o começo de outra. O filme representa o último suspiro da cultura de corrida de rua que alimentou a franquia ‘Velozes e Furiosos’ por três filmes inteiros, mas seu momento final fornece a base para tudo o que a franquia se tornaria depois. Para um filme que passou anos sendo tratado como o filho do meio estranho da franquia, esse é um legado incrível. ‘Desafio em Tóquio’ não apenas sobreviveu ao teste do tempo, mas de alguma forma conseguiu se tornar a entrada mais importante de toda a série. Acontece que o garoto problemático do Alabama realmente acabou mudando o mundo, mas não da maneira que ninguém esperava.
Leia mais aqui em inglês: https://www.polygon.com/20-years-ago-vin-diesels-contract-loophole-changed-american-cinema/.
Fonte: Polygon.
Polygon.com.
2026-06-16 20:47:00








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