Backrooms: o horror que nasceu na internet e virou filme reflete o labirinto digital de 2026

Uma fotografia banal de um escritório amarelo e sem graça se transformou em um dos mitos de terror mais marcantes da era digital, e agora é um longa-metragem que rivaliza com franquias como Star Wars. O fenômeno é curioso porque a imagem original dos Backrooms não mostra monstros, violência ou sustos fáceis — apenas um ambiente desconfortável que milhões de pessoas reconheceram como estranhamente familiar. Para muitos, porém, o horror dos Backrooms nunca foi sobre um espaço físico infinito, mas sobre a própria internet.

A ideia surgiu no fim dos anos 1990 e início dos anos 2000, quando a web ainda parecia um território de descoberta. Bastavam alguns cliques para tropeçar em sites pessoais bizarros, fóruns de nicho, páginas de fãs, blogs abandonados e projetos de arte excêntricos. A internet daquela época parecia infinita, mas ainda estranhamente humana. Hoje, a rede é tecnicamente maior do que nunca, mas parece menor — por design. Grandes plataformas dominam a atenção, algoritmos empurram os usuários para o mesmo conteúdo, e os resultados de busca são cada vez mais poluídos por posts patrocinados e desinformação gerada por inteligência artificial.

Essa sensação de vazio corporativo é capturada de forma exemplar na interpretação de Kane Parsons para o fenômeno. Tanto seus vídeos no YouTube quanto o novo filme mostram os Backrooms como um projeto empresarial que deu errado — um experimento conduzido por cientistas e executivos tentando explorar dimensões além da compreensão humana. Um dos vídeos da série, intitulado Backrooms – Presentation, leva essa ideia ao extremo ao apresentar um anúncio fictício que lista todas as maneiras pelas quais o A-Space da empresa Async pode ser usado para aumentar lucros: armazenamento, depósitos, espaços comerciais, residenciais e escritórios corporativos. A história de Parsons não é tanto sobre os monstros dentro do espaço, mas sobre se perder dentro de sistemas construídos por organizações que perseguem objetivos que as pessoas comuns mal compreendem.

O mais curioso sobre os Backrooms é que eles nasceram exatamente do tipo de internet que muitos hoje lamentam ter perdido. Nenhum criador isolado construiu a mitologia. Ela se espalhou por imageboards, wikis, fóruns, vídeos do YouTube e comunidades de roleplay, com milhares de contribuidores adicionando coletivamente novas salas, entidades e histórias simplesmente porque achavam a ideia fascinante. Os Backrooms só poderiam existir em uma internet participativa, movida pela curiosidade em vez da otimização. No entanto, o horror que retratam parece inseparável da internet que veio depois.

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Image: 4chanFonte da imagem: Polygon

À medida que as plataformas se tornaram cada vez mais centralizadas, os algoritmos substituíram a exploração, e os feeds infinitos transformaram a navegação em consumo passivo, a web começou a parecer menos uma fronteira e mais um labirinto. Os Backrooms capturam essa mudança perfeitamente. É a internet imaginando seu próprio futuro e recuando diante do que vê. Um mito colaborativo nascido em uma era de descoberta digital se tornou um dos símbolos definidores da alienação e do isolamento.

Nesse sentido, os Backrooms parecem uma lembrança distorcida do que a internet um dia foi. O filme de Parsons parece consciente dessa contradição. Em determinado momento, o protagonista Clark (interpretado por Chiwetel Ejiofor) diz: Quanto mais vezes algo se lembra, menos lembra. A frase se refere aos próprios Backrooms, mas também soa como uma descrição da web moderna. A internet lembra de tudo, mas cada camada de republicação, arquivamento, classificação algorítmica e reciclagem de conteúdo nos afasta do original. O que resta são fragmentos de capturas de tela sem contexto, fóruns abandonados, links mortos e comunidades meio esquecidas. Os Backrooms parecem a internet tentando se lembrar do que já foi e encontrando apenas ecos distorcidos.

Aquela sala amarelada original assusta porque parece familiar — não porque estivemos lá fisicamente, mas porque estivemos lá digitalmente. Já clicamos em abas infinitas, vagamos por correntes de recomendações, esquecemos o que procurávamos originalmente e nos encontramos em algum lugar estranho e vazio. Os Backrooms se tornaram uma das histórias de terror definidoras da era da internet porque entenderam que o labirinto mais assustador não estava escondido sob a realidade. Nós mesmos o construímos.

O filme Backrooms está em cartaz nos cinemas. A fonte complementar, o site milk.com, mantido por Dan Bornstein desde 1994, é um exemplo do tipo de web descentralizada e pessoal que o mito evoca — um espaço que resiste à homogeneização das grandes plataformas, com seções que vão de receitas a música e um manifesto claro: não está à venda.

Leia mais aqui em inglês: https://milk.com/.

Fonte: milk.com.

Polygon.com.

2026-06-01 19:00:00

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