30 anos depois: o primeiro Missão: Impossível que transformou Tom Cruise em herói solitário agora está de graça no streaming

Há 30 anos, Tom Cruise lançava uma franquia que se tornaria uma das mais duradouras de Hollywood, mas poucos lembram que o ator, na época, era conhecido por interpretar personagens arrogantes e convencidos. O primeiro Missão: Impossível, dirigido por Brian De Palma, não apenas apresentou o agente Ethan Hunt ao mundo, mas também marcou o início de uma transformação na imagem de Cruise, que passaria de galã cocky a herói solitário e quase messiânico. Agora, os três primeiros filmes da série estão disponíveis gratuitamente no Tubi, plataforma de streaming com anúncios, e o público brasileiro pode revisitar essa obra-prima do suspense que redefiniu o gênero de espionagem.

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Fonte da imagem: Polygon

Na década de 1980 e início dos anos 1990, Cruise construiu sua carreira interpretando personagens que eram, nas palavras do próprio texto original, idiotas — não no sentido de serem desagradáveis ou perdedores, mas de carregarem uma autoconfiança extrema que beirava a arrogância. Filmes como Top Gun, Rain Man, A Cor do Dinheiro, Negócio Arriscado e Questão de Honra exploraram essa persona de diferentes maneiras. Em Top Gun, Maverick é a versão cartoon do arquétipo; em Rain Man, Charlie Babbitt traz uma leitura mais sutil; já em Jerry Maguire, a premissa é justamente o que aconteceria se esse idiota deixasse de ser idiota logo no início do filme, enquanto todos ao redor demoram a perceber.

Foi nesse contexto que Cruise estrelou o primeiro Missão: Impossível, em 1996, e deu vida a Ethan Hunt. O personagem, naquele momento, era irreconhecível em comparação ao super-herói altruísta e quase cristão dos filmes mais recentes. Hunt aparecia com cabelo espetado, jaqueta de couro sobre uma camiseta de gola V, sorriso maroto e uma lábia afiada, além de truques de mágica que usava para provocar seus oponentes. Cruise, que já era um megastar há uma década, parecia incrivelmente jovem e ainda estava firmemente em sua era idiota.

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Photo: Paramount Pictures via Everett CollectionFonte da imagem: Polygon

A trama do primeiro filme é um dos maiores trunfos da produção. Nas primeiras trinta minutos, somos apresentados a uma equipe da Força de Missões Impossíveis (IMF) liderada por Hunt, composta por atores famosos da época: Jon Voight, Kristin Scott Thomas, Emilio Estevez e Emanuelle Béart. Em uma sequência que é considerada uma aula de suspense, dirigida com maestria por De Palma, todos os membros da equipe são mortos ou aparentemente mortos, e Hunt é incriminado como o traidor responsável pela chacina. A cena, filmada em Praga, na República Tcheca, utiliza uma narrativa em primeira pessoa para envolver o espectador, escondendo detalhes cruciais até o clímax.

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Photo: Paramount Pictures via Everett CollectionFonte da imagem: Polygon

O ponto alto dessa sequência é o confronto entre Hunt e o diretor da IMF, Eugene Kittridge, interpretado por Henry Czerny, em um restaurante. Cruise entrega uma atuação intensa, e a cena se tornou icônica. Na época, a reviravolta foi chocante, pois o filme parecia estar montando uma franquia com um elenco estelar, mas optou por deixar Hunt praticamente sozinho, traído por todos, exceto pelo hacker Luther Stickell, vivido por Ving Rhames. Essa solidão se tornaria uma marca registrada da série, que aos poucos reconstruiria uma equipe ao redor de Hunt, incluindo Simon Pegg como Benji Dunn e Rebecca Ferguson como Ilsa Faust, mas sempre mantendo o protagonista como uma figura solitária.

Após os romances mal aconselhados de Missão: Impossível 2 e 3, os produtores, incluindo o próprio Cruise, e os roteiristas estabeleceram uma fórmula: Hunt deve começar e terminar cada filme sozinho, emergindo das sombras para salvar o dia e depois desaparecendo novamente. Essa dinâmica não é explícita no primeiro filme, cuja trama é movida por motivações pessoais — a busca de Hunt por limpar seu nome e se vingar do verdadeiro traidor. Não há ameaça de fim do mundo, apenas uma disputa confusa por um arquivo de computador que lista agentes da CIA. Essa abordagem mais pé no chão diferencia o filme de De Palma das produções posteriores, que se tornaram espetáculos de dublês e efeitos, com tom mais urgente e menos cínico.

Simbolicamente, Missão: Impossível preparou o terreno para que Cruise remodelasse sua imagem pública. Após o turbilhão emocional de De Olhos Bem Fechados, o divórcio de Nicole Kidman e a famosa polêmica no programa de Oprah Winfrey, o ator sentiu a necessidade de se afastar do plano humano, assim como Hunt faz no final de cada filme. A perda irreparável dos companheiros nos primeiros trinta minutos do primeiro longa serviu como moldura narrativa para essa transformação. Para Hunt e para Cruise, não houve como desfazer a tragédia e a traição daqueles trinta minutos nos trinta anos seguintes. O idiota em busca de redenção se tornou o solitário excepcional, alguém que ama seus amigos, mas nunca pode deixá-los chegar perto demais, porque é especial demais e o perigo é grande demais.

Os três primeiros filmes da franquia — Missão: Impossível, Missão: Impossível 2 e Missão: Impossível 3 — já estão disponíveis no Tubi, plataforma de streaming gratuita que vem ganhando espaço no Brasil. Para os fãs de longa data e para aqueles que querem entender como uma das maiores sagas de ação de Hollywood começou, é a oportunidade perfeita para revisitar o clássico que plantou a semente da transformação de Tom Cruise em herói de ação. A produção, que combina suspense inteligente com cenas de ação memoráveis, como o famoso roubo dos arquivos na sede da CIA, continua tão eficaz hoje quanto há três décadas, provando que a franquia nasceu de uma abordagem mais cerebral e cínica, antes de se tornar o espetáculo visual que conhecemos hoje.

Leia mais aqui em inglês: https://www.polygon.com/mission-impossible-tom-cruise-free-streaming-august-2026/.

Fonte: Polygon.

2026-08-19 00:31:00

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