Quem curte adaptações de Stephen King tem um motivo a mais para abrir o streaming: The Mist, filme dirigido por Frank Darabont em 2007, está disponível gratuitamente no Roku. A obra é baseada na novela de King publicada em 1980 e ficou marcada por um desfecho que o próprio autor admitiu que queria ter criado.

A trama começa depois de uma tempestade violenta danificar a casa de David Drayton (Thomas Jane). Ele decide ir até o mercado da cidade com o filho pequeno, Billy (Nathan Gamble), e o vizinho (Andre Braugher) para comprar suprimentos. Pouco depois de entrarem no supermercado, que já está cheio de moradores se abastecendo após o temporal, uma névoa estranha cobre o lado de fora. A neblina não demora a mostrar que esconde criaturas monstruosas.
Uma das sequências mais fortes acontece logo no início, quando David e outros homens vão até a área de carga do mercado e encontram tentáculos enormes atravessando a abertura. Norm (Chris Owen), um jovem repositor, é um dos primeiros a ser atacado. Os tentáculos têm lâminas afiadas e cortam a pele com facilidade. David, Ollie Weeks (Toby Jones) e os outros tentam puxar Norm de volta, mas são dominados. O rapaz é arrastado para a névoa aos gritos, em meio a muito sangue, e morre enquanto os demais só podem assistir.

O design das criaturas lovecraftianas é construído para incomodar justamente pelo que Darabont não mostra. O diretor raramente dá uma visão limpa dos monstros maiores, deixando a câmera nervosa, os gritos, o sangue e os tentáculos gigantes fazerem o trabalho pesado. Logo fica claro que o supermercado é mais uma jaula do que um refúgio.
Com o passar do tempo, o medo entre os sobreviventes começa a destruir qualquer senso de comunidade. A pior entre eles é a Sra. Carmody (Marcia Gay Harden), que se torna cada vez mais fanática e tenta explicar os horrores como punição divina. Enquanto David e os outros tentam entender a situação, as interpretações de Carmody ganham força e influenciam os sobreviventes apavorados. O slogan do filme, “Fear changes everything” (“O medo muda tudo”), nunca é dito por nenhum personagem e nem existe na novela de King — foi criado só para a divulgação —, mas resume bem o que a obra quer dizer. Ver pessoas discutindo se as criaturas existem é perturbador, mas ver Carmody transformar esse medo em movimento fanático é ainda mais devastador.

Os efeitos digitais do filme envelheceram mal. Com orçamento entre US$ 13 milhões e US$ 18 milhões, The Mist tem um visual claramente limitado. Os tentáculos digitais parecem emborrachados e sem integração de sombra e luz com o ambiente. A maioria dos efeitos parece datada para os padrões atuais e já era estranha em 2007. Ainda assim, há um charme duvidoso nessa precariedade: Darabont falou sobre ter que rodar com orçamento reduzido e cronograma apertado, o que exigia decidir constantemente onde gastar os poucos recursos. O restante do bestiário digital não é melhor, mas os efeitos ruins dão ao filme uma energia de produção B. E dá para relevar os visuais quando o verdadeiro terror vem do elenco, com atuações fortes de Thomas Jane, Marcia Gay Harden e Toby Jones.

A maior diferença entre o filme e a novela de King está no final. Darabont se mantém bem próximo do material original durante quase toda a duração, preservando o supermercado, os monstros grotescos, o fanatismo religioso de Carmody e a tentativa desesperada de David de proteger o filho. Mas o diretor decidiu dar um fechamento definitivo à história, em vez do final mais aberto de King, criando um impacto emocional difícil de replicar. Darabont pensava nesse final havia anos e lutou para mantê-lo quando o filme estava sendo financiado. King acabou elogiando a mudança — segundo Darabont, o autor disse que gostaria de ter tido essa ideia.
Alerta de spoiler de um filme de 19 anos: David e os sobreviventes restantes conseguem escapar do supermercado e dirigem até o carro ficar sem gasolina, presos no meio da névoa. Sem para onde ir e sem saber onde a névoa termina, David toma a única decisão que acredita restar. Com apenas quatro balas, ele atira nos sobreviventes um a um, deixando o filho Billy para o final. A morte do menino é brutal porque David passou o filme inteiro tentando protegê-lo dos horrores lá fora, só para se tornar a pessoa que o mata. Depois disso, David sai do carro e se prepara para enfrentar as criaturas, gritando na névoa em agonia absoluta. O que surge não é um monstro, mas um comboio militar com soldados, tanques e caminhões cheios de sobreviventes. David assiste em choque enquanto a névoa se dissipa e o comboio passa. Em segundos, ele percebe que o socorro estava a poucos instantes de distância.

Esses momentos finais são o motivo pelo qual The Mist continua marcante. As criaturas digitais podem parecer saídas de cutscenes de videogame, e o cenário do supermercado pode ficar repetitivo depois de uma hora, mas nada disso apaga a sensação que o filme deixa. Darabont pega uma história sobre monstros surgindo de uma névoa inexplicável e a transforma em uma reflexão sobre as coisas terríveis que as pessoas podem se convencer a fazer quando não há mais esperança.
Visão Gamer: Para quem gosta de jogos com narrativas pesadas e finais que não poupam o jogador, The Mist é uma referência direta. A estrutura de pessoas presas em um único ambiente enquanto o mundo externo vira um caos monstruoso lembra muito jogos de sobrevivência e terror psicológico, e o desfecho brutal é o tipo de escolha narrativa que divide opiniões — exatamente como acontece em títulos que apostam em decisões irreversíveis. O filme está disponível de graça no Roku, então é uma chance de conferir uma das adaptações mais cruéis de Stephen King sem gastar nada.
Leia mais aqui em inglês: https://www.polygon.com/stephen-king-the-mist-movie-free-to-stream/.
Fonte: Polygon.
2026-10-03 22:00:00








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