Wolverine é, sem dúvida, um dos personagens mais populares da Marvel, tanto nos quadrinhos quanto nas adaptações para outras mídias. Mas o que explica essa popularidade duradoura? Para muitos fãs, o segredo está no fato de que existem duas versões distintas do personagem, que convivem mais ou menos ao mesmo tempo e, por vezes, até se alternam dentro de uma mesma história. Cada uma delas tem seus próprios admiradores, e essa dualidade é uma das marcas registradas do mutante canadense.

A primeira versão, e a mais famosa, é a do Wolverine violento e instintivo: um homem baixo, peludo e prestes a explodir em violência a qualquer momento. Como o próprio codinome sugere, esse Wolverine é tão perigoso para os aliados quanto para os inimigos, e nunca ouviu falar em controle de raiva. Não é à toa que muitas das imagens mais icônicas do personagem o mostram tentando matar outro super-herói. Esse Logan é difícil de gostar, mas, depois da briga obrigatória, ele se revela um bom companheiro de equipe. Era essa versão que os leitores esperavam encontrar quando Wolverine aparecia como convidado em outras revistas.

A segunda versão, por outro lado, é a que tem profundidade. Com mais de cem anos de idade, e com a memória frequentemente cheia de lacunas, esse Wolverine carrega a experiência de quem viveu muito. É essa versão que tem jeito para dirigir uma escola, que se dá bem com crianças e que adota um novo parceiro adolescente a cada década. Essa é a face do personagem que os fãs conhecem como Logan, o filósofo zen.
A alternância entre essas duas versões depende muito do escritor, do título e da situação. Às vezes, Wolverine está em modo adolescente permanente, pronto para brigar com qualquer um sem motivo algum; em outras ocasiões, ele surge como um sábio. Essa inconsistência pode ser frustrante, principalmente para quem lê muitas revistas em sequência. Mais do que com outros grandes personagens da Marvel, há um abismo enorme entre as boas, más e medianas representações de Wolverine. Muitos artigos já foram escritos sobre a sabedoria e o sarcasmo do personagem, mas a maioria se limita a listar seus bordões — como “Eu sou o melhor no que faço”, ou a explicação sobre seus ossos e fator de cura para alguém que acabou de tentar matá-lo, ou ainda a famosa ofensa a Ciclope no primeiro filme dos X-Men.

Um dos momentos mais marcantes do personagem, no entanto, não está em nenhuma dessas frases de efeito. Ele aparece no final de um arco brutal em uma revista igualmente brutal: Wolverine vol. 7, publicada entre 2020 e 2024, durante a era Krakoa dos X-Men, quando os mutantes se uniram como uma força política na ilha viva de Krakoa. Esse período foi empolgante e visionário para a franquia, e ainda não se recuperou totalmente do seu fim, em 2024. A fase foi escrita pelo romancista Benjamin Percy, que atualmente trabalha em The End Times com Stephen King, e, edição após edição, é uma das mais sombrias que o personagem já teve. Wolverine é retratado como um agente de operações secretas de uma nação mutante, mergulhado em sangue desde o início.

A revista termina com o arco “Sabertooth War”, no qual Victor Creed, o Dentes de Sabre, foge da prisão mutante para o que seria seu confronto final com Logan. O número de mortos e os danos colaterais são altos, e, embora Logan saia vitorioso, ele paga um preço alto: a vida de seu filho Daken. (Daken se recupera mais tarde, mas isso é outra história.) Na última página da história, e também do volume, Logan reflete sobre o que aprendeu até ali: “Aqui está o que aprendi sobre a felicidade. Posso estar me sentindo bem… mas esse sentimento nunca vai longe. Porque eu me lembro de toda a dor que existe no mundo. Eu costumava pensar que isso tornava a felicidade impossível. Mas Krakoa me ensinou que o oposto também é verdadeiro.”
Essa reflexão é um desfecho interessante para a fase, especialmente vindo de um personagem como Logan. Ele costuma ser retratado como cínico demais para funcionar, mesmo no cenário utópico de ficção científica da era Krakoa. Por isso, encerrar a revista com uma nota tão positiva e madura tem um impacto enorme. A frase não é uma meditação sobre a própria capacidade de luta, o que, na opinião de muitos, a coloca acima dos bordões habituais do personagem. Em vez disso, é uma lição simples e útil sobre felicidade e luto, algo que qualquer pessoa pode carregar consigo. Para quem procura citações inspiradoras ditas, inexplicavelmente, pelo canadense mais raivoso da história dos quadrinhos, esse é um ótimo ponto de partida.
Leia mais aqui em inglês: https://www.polygon.com/wolverine-best-quote-x-men/.
Fonte: Polygon.
2026-08-16 18:00:00








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