O criador do mangá mais vendido My Hero Academia, Kohei Horikoshi, está de volta com uma nova história. Publicado na edição mais recente da Weekly Shonen Jump, o one-shot Quit Laughing, Shijima é anunciado como uma história de terror, mas entrega uma aventura sobrenatural divertida, com protagonistas adolescentes típicos e criaturas assustadoras, ainda que não alcance o alto nível dos grandes nomes do gênero.

Desde o fim de My Hero Academia, há dois anos, Horikoshi virou alvo de memes entre os fãs, que o apelidaram de “Horikoshi desempregado”. Livre da rotina exaustiva de desenhar um mangá semanal, ele presenteou os fãs com uma série de ilustrações incríveis que mostram sua habilidade artística. Mas ele não ficou parado: em 2022, o autor já havia manifestado o desejo de trabalhar com terror, e agora os leitores podem conferir o resultado.
Quit Laughing, Shijima se passa em Konoshiro City, uma movimentada cidade litorânea japonesa, descrita como “grande” e com três milhões de habitantes. O protagonista é Azumi, um garoto prestes a terminar o segundo ano do ensino médio, que vive um dia de cada vez sem se preocupar com o futuro. Ele é secretamente apaixonado por Shijima, uma garota animada, de risada alta, que todos na cidade adoram. Azumi também guarda um segredo: ele consegue ver figuras humanoides grotescas que habitam a baía. Um dia, uma dessas criaturas aparece em terra firme, aparentemente seguindo Shijima. No dia seguinte, ela para de ir à escola.

A premissa, embora não seja original, é atraente. O trabalho de construção de personagens de Horikoshi é brilhante como sempre, e o design dos monstros é um dos grandes atrativos, impressionando pela originalidade e pela sensação de desconforto que provoca. No entanto, a história rapidamente segue por caminhos já conhecidos. Quem assistiu a O Homem de Palha, Midsommar ou Higurashi: When They Cry já sabe para onde a trama aponta: Shijima foi escolhida como sacrifício para uma entidade divina que vive na baía e garante a prosperidade da cidade. Algumas famílias selecionadas conhecem essa tradição brutal e a mantêm viva. Shijima aparenta estar feliz, pois isso é considerado uma grande honra, e a cidade inteira a trata de forma especial. Quando Azumi descobre a verdade, ele corre para salvá-la e mata o monstro enquanto declara seu amor.
Não há nada de errado com clichês — eles são a base de toda narrativa —, mas Quit Laughing, Shijima lida de forma estranha com o gênero que se propõe a representar. Fora a premissa do sacrifício humano e o visual dos monstros, há pouco que possa ser descrito como “terror” aqui. O terror urbano japonês tem uma forte tradição em diferentes mídias. De Uzumaki a Silent Hill f, passando por The Summer Hikaru Died, essas histórias têm algo em comum: pegam cenários familiares e confortáveis e os transformam em reflexos distorcidos, onde o horror se infiltra lentamente pelas frestas. Esse tipo de terror japonês tem um tom psicológico; transforma o ordinário em extraordinário ao expor a realidade perturbadora que se esconde sob a superfície do cotidiano, como puxar um curativo para revelar uma ferida infeccionada.

Um ótimo exemplo é A Questionnaire on the Mouth, um mangá curto de Sesuji e Suzo Oshimi, publicado recentemente no Shonen Jump Plus. A história começa como uma entrevista com um grupo de amigos e se transforma em um conto de segredos sombrios e abuso psicológico, com toques de body horror. É assustador, perturbador e constrói tensão cuidadosamente — qualidades que Quit Laughing, Shijima não apresenta. Talvez seja injusto comparar Horikoshi a mestres do gênero como Junji Ito ou Shuzo Oshimi. Depois de passar dez anos escrevendo e desenhando uma história de super-heróis, mudar para uma atmosfera e um estilo de narrativa completamente diferentes não deve ser tarefa fácil, mesmo para alguém tão talentoso quanto Horikoshi.
O problema de Quit Laughing, Shijima é que ele não deveria ser lido como uma história de terror, independentemente do que o autor diga. É o piloto de uma série de ação sobrenatural, e o final funciona muito bem nesse sentido, fazendo os leitores acreditarem que o anúncio de um mangá completo pode vir em breve. Os personagens são divertidos e cativantes, e a cena em que os protagonistas derrotam o monstro juntos, enquanto declaram seu amor, remete diretamente a My Hero Academia. A narrativa emocional é o que Horikoshi faz de melhor, e ele não precisa de uma série completa para mostrar isso.

Um elemento da história do one-shot ressoa mais do que os outros. Os leitores conhecem Shijima como a garota mais popular da escola. Mais tarde, em um flashback, descobrem que, quando Azumi a conheceu, ela era alvo de bullying por causa de seus dentes “estranhos”. Aos poucos, revela-se que o único motivo da popularidade de Shijima é o fato de ela ter sido escolhida como sacrifício. Ela está sendo psicologicamente torturada para aceitar seu papel de vítima pela cidade inteira, incluindo sua própria família. É uma reviravolta brutal, que lembra como as melhores histórias de terror japonês conseguem misturar o mundano e o sobrenatural, usando este último como lente para interpretar os aspectos mais sombrios do primeiro.
No entanto, esse elemento não se torna o núcleo da história. No final do one-shot, Azumi aparece em um telhado em uma pose que espelha Deku, de My Hero Academia, tendo se tornado uma espécie de vigilante sobrenatural cuja missão é acabar com tradições horríveis como a que Shijima sofreu. Pode não ser verdadeiro terror de mangá, mas a expectativa pelo que vem a seguir é grande.
Leia mais aqui em inglês: https://www.polygon.com/horikoshi-horror-manga-quit-laughing-shijima-review/.
Fonte: Polygon.
2026-08-12 23:00:00








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