Como Batman Begins abriu o caminho para Odisseia de Christopher Nolan

Enquanto ‘Odisseia’, a nova adaptação de Christopher Nolan do poema épico de Homero, domina as bilheterias mundiais, muitos críticos e fãs têm traçado paralelos com ‘Oppenheimer’, o filme anterior do diretor. A comparação é natural, já que os dois foram rodados consecutivamente, e há, de fato, uma conexão temática: ambos tratam de homens lidando com as consequências devastadoras de suas escolhas em meio à guerra. No entanto, quando se analisa a estrutura narrativa de ‘Odisseia’, o filme que mais se aproxima não é o drama histórico sobre o criador da bomba atômica, mas sim um dos primeiros e mais subestimados trabalhos de Nolan: ‘Batman Begins’, de 2005.

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Fonte da imagem: Polygon

Lançado há duas décadas, ‘Batman Begins’ conta a origem de Bruce Wayne (Christian Bale), desde o assassinato de seus pais quando criança até seu retorno a Gotham City após anos de treinamento pelo mundo, incluindo sua passagem pela Liga das Sombras, uma organização secreta de guerreiros que se vê como um freio aos excessos da sociedade. Diferente da Liga, que não hesita em matar, Bruce adota uma filosofia de não violência letal e, ao voltar para Gotham, decide combater o crime que tirou a vida de seus pais. Para isso, cria a persona do Batman, um símbolo de medo para os criminosos. Toda essa história é contada na primeira hora do filme, que tem duas horas e dez minutos de duração (sem os créditos).

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Image: Warner Bros/Everett CollectionFonte da imagem: Polygon

Para cobrir tanto terreno em tão pouco tempo, Nolan utiliza duas técnicas narrativas que se repetem em ‘Odisseia’: a narrativa não linear e as cenas contadas em vinhetas. Nos primeiros 35 minutos de ‘Batman Begins’, a história alterna entre a infância de Bruce e sua juventude, quando conhece Ra’s al Ghul (Liam Neeson), seu mentor na Liga das Sombras. Grande parte desse trecho é apresentada em vinhetas — cenas curtas que mostram apenas o meio da ação, sem começo ou fim tradicionais. Um exemplo marcante é o assassinato dos pais de Bruce: a cena começa já dentro da ópera, quando o menino se assusta com os morcegos no palco; em cerca de 40 segundos, a família sai pelo beco, é abordada por Joe Chill (Richard Brake) e morta. A rapidez da direção de Nolan e da edição de Lee Smith enfatiza a brutalidade do evento e mantém o ritmo acelerado.

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Image: Warner Bros/Everett CollectionFonte da imagem: Polygon

Após a saída de Bruce da Liga das Sombras e seu retorno a Gotham, ‘Batman Begins’ se torna mais linear, mas as cenas continuam sendo apresentadas em vinhetas apertadas. Desde a primeira noite de Batman como vigilante até o desenvolvimento do uniforme e a descoberta do Tumbler (que se tornará o Batmóvel), o espectador recebe apenas fragmentos das cenas. Raramente há uma cena completa, como a perseguição no cais ou a do Tumbler. Essa abordagem contrasta com ‘O Cavaleiro das Trevas’, a sequência de 2008, que adota uma estrutura narrativa muito mais tradicional.

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Em ‘Odisseia’, Nolan emprega as mesmas duas técnicas, mas em proporções diferentes. O filme salta entre vários cenários: a Ítaca do presente, com Telêmaco (Tom Holland) e Penélope (Anne Hathaway) lidando com os pretendentes; a praia de Calipso (Charlize Theron), onde Odisseu (Matt Damon) conta a história de sua jornada; e a própria jornada de Odisseu após a Guerra de Troia. Há ainda uma quarta narrativa, quando Telêmaco viaja a Esparta e Menelau (Jon Bernthal) conta histórias sobre a guerra. Enquanto ‘Batman Begins’ é não linear apenas nos primeiros 35 minutos, a maior parte de ‘Odisseia’ é contada fora de ordem — só se torna linear na última meia hora, quando Odisseu retorna a Ítaca.

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Quanto ao uso de vinhetas, Nolan faz menos disso em ‘Odisseia’ do que em ‘Batman Begins’, mas ainda assim emprega a técnica com frequência. Durante a jornada de Odisseu, há cenas completas, como o encontro com o ciclope: vemos a chegada à ilha, a entrada na caverna, a tentativa de fuga e a perseguição. No entanto, até o retorno a Ítaca, a maioria das cenas em Ítaca é breve e direta. O mesmo ocorre nas cenas de Telêmaco com Menelau: fragmentos de refeições e caçadas, sem desenvolvimento maior.

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O uso mais interessante das cenas fragmentadas em ‘Odisseia’ envolve o Cavalo de Troia. No início do filme, vemos apenas um pouco de Sinon (Elliot Page) na praia com o cavalo, contado por um bardo (Travis Scott) em poesia oral. Depois, quando Telêmaco está com Menelau, obtemos mais detalhes, agora de dentro do cavalo, sobre o plano para introduzi-lo em Troia. Mas só perto do fim, quando Odisseu se reúne com Penélope, entendemos o significado completo da cena, ao vermos o quão brutal e selvagem foi a batalha. Nenhuma dessas três partes conta a história completa do Cavalo de Troia; apenas combinadas elas revelam o que aconteceu em Troia e o impacto sobre Odisseu.

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Claro, Nolan não inventou esse tipo de narrativa. ‘Cidadão Kane’ é um exemplo clássico de filme contado fora de ordem e com cenas que exploram apenas o meio da ação. Na própria filmografia de Nolan, há histórias não lineares muito mais complexas, como ‘A Origem’, ‘Tenet’ e ‘Amnésia’, que podem exigir múltiplas visualizações para serem compreendidas. ‘Odisseia’ não é tão intrincada, mas, assim como ‘Batman Begins’, é uma epopeia sobre um herói lendário. Muitas pessoas já contaram histórias sobre Batman e Odisseu antes de Nolan, e muitas outras serão contadas depois. Mas, em ambos os casos, o diretor usou técnicas narrativas semelhantes para transmitir a grandiosidade desses personagens. ‘Batman Begins’ está disponível para streaming no HBO Max, e ‘Odisseia’ está em cartaz nos cinemas.

Leia mais aqui em inglês: https://www.polygon.com/christopher-nolans-training-ground-for-the-odyssey-was-batman-begins/.

Fonte: Polygon.

2026-07-26 13:00:00

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