Antes de False Memory, FLCL já provava que anime pode ser estranho, íntimo e humano ao mesmo tempo

O estúdio chinês Flint Sugar se prepara para lançar no mês que vem, gratuitamente no YouTube, a donghua ‘False Memory’, uma das animações mais aguardadas do ano. Com a assinatura de Shuyu Li e Wenyu Liu — dupla que lidera o movimento de animação 2D independente na China e fundadora do estúdio — a obra promete uma história de amadurecimento introspectiva envolta em ficção científica surreal. A trama acompanha um garoto que encontra um universo paralelo usando um dispositivo capaz de alterar o tempo. Mas, para fãs de longa data de anime, as semelhanças com uma série de mais de duas décadas atrás são inevitáveis: ‘FLCL’ (pronuncia-se ‘Furikuri’, ou ‘Foolycooly’ em inglês).

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Fonte da imagem: Polygon

Lançada em 2000 pelo lendário estúdio Gainax (de ‘Neon Genesis Evangelion’, ‘Gurren Lagann’ e ‘Gunbuster’), ‘FLCL’ é uma OVA de apenas seis episódios que se tornou um marco na história do anime. Dirigida por Kazuya Tsurumaki e escrita por Yōji Enokido — dupla que depois criaria ‘Mobile Suit Gundam GQuuuuuuX’ e ‘Diebuster’ — a série apresenta Naota Nandaba, um garoto de 12 anos cuja vida pacata é virada de cabeça para baixo quando ele é atingido por uma guitarra tocada por uma mulher excêntrica que se diz uma pirata espacial.

A trama é tão absurda quanto parece: robôs brotam da testa do protagonista, guitarras viram armas, uma Vespa voa e uma fábrica gigante em forma de ferro paira sobre a cidadezinha pacata. O mais fascinante, porém, é como os adultos se comportam com a maturidade emocional de crianças, enquanto as crianças da cidade são forçadas a lidar com sentimentos que mal compreendem. De alguma forma, tudo faz sentido. Esse é o grande truque de ‘FLCL’: construir um mundo quase cômico, pedindo que o espectador aceite regras impossíveis sem jamais se alongar nelas. O bizarro simplesmente existe, liberando a série para focar nos temas subjacentes da adolescência — o desconforto de crescer, a frustração de se sentir preso em uma cidade que nunca muda e o desejo de se tornar alguém mais velho antes de descobrir quem realmente se é.

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Image: Production I.G.Fonte da imagem: Polygon

Assim como ‘Neon Genesis Evangelion’, ‘FLCL’ tem um protagonista que ressente o mundo ao redor tanto quanto a si mesmo. Naota carrega o mesmo cinismo distante pelo qual Shinji Ikari é lembrado, mas as duas histórias chegam a destinos diferentes. Enquanto ‘Evangelion’ espirala para dentro com autodepreciação e dúvida existencial, ‘FLCL’ explode para fora. Por baixo das guitarras elétricas, robôs humanoides, humor pastelão e caos visual, há uma história inesperadamente otimista sobre abraçar a mudança em vez de temê-la. A série pede que o espectador pare de fingir que já cresceu e simplesmente se permita se tornar a pessoa que está destinado a ser.

Parte do brilho de ‘FLCL’ está em sua trilha sonora. Assim como ‘Cowboy Bebop’ e ‘Samurai Champloo’, de Shinichiro Watanabe, a série incorpora a música à própria narrativa. O diretor Tsurumaki, fã da banda japonesa de rock alternativo The Pillows, escolheu suas faixas favoritas para pontuar a animação, dando um tom energético, punk e garageiro que eleva cada cena. O rock alternativo distorcido da banda se torna o coração do show, transformando conversas silenciosas em momentos de saudade e cenas de ação explosivas em clímax emocionais.

FLCL
Image: Production I.G.Fonte da imagem: Polygon

Essa ressonância sonora fez com que ‘FLCL’ se encaixasse naturalmente no formato de AMV (anime music video) da época — e nenhum foi tão memorável quanto o lendário ‘Fuel “Shimmer” AMV’, de 19 anos atrás, que provavelmente apresentou a série a muitos fãs. ‘FLCL’ não se espalhou pela internet da mesma forma que ‘Serial Experiments Lain’, mas se tornou inseparável dos primórdios do fandom de anime online. Antes do streaming, séries como ‘FLCL’ viviam pelo boca a boca, edições de fãs, fóruns e vídeos caseiros que ajudavam a apresentar comunidades inteiras a novos mundos. (O VHS original ainda pode ser assistido no Internet Archive.)

Essa conexão é ainda mais significativa considerando o quanto ‘FLCL’ ajudou a definir o anime na virada do século. Chegou em um momento em que o meio estava se expandindo para além de suas fronteiras tradicionais, misturando animação experimental, música alternativa e narrativa profundamente pessoal de uma forma que parecia diferente de tudo na televisão. Sua influência ainda é sentida hoje, inclusive em projetos como ‘False Memory’, que parece compartilhar a fascinação de ‘FLCL’ pela adolescência, imagens surreais e o caos emocional de crescer.

‘False Memory’ chega dois dias antes do 23º aniversário do lançamento de ‘FLCL’ nos Estados Unidos, servindo como um lembrete oportuno de como aquela era do anime continua a inspirar criadores hoje. Se vai capturar a mesma energia de ‘lightning in a bottle’ ou apenas carregar adiante algumas dessas ideias, ainda está por se ver, mas existe porque histórias como ‘FLCL’ provaram que o anime podia ser estranho, íntimo, experimental e profundamente humano ao mesmo tempo.

Esse sempre foi o encanto de ‘FLCL’: é um dos melhores animes de seis episódios que se pode maratonar, mas, mais importante, é a prova de que, quando música e narrativa se movem em harmonia perfeita — especialmente em relação a temas pungentes da adolescência —, podem deixar uma impressão que dura mais que uma vida. ‘FLCL’ está disponível para streaming no HBO Max e no Crunchyroll.

Leia mais aqui em inglês: https://www.polygon.com/flcl-best-anime-streaming/.

Fonte: Polygon.

2026-07-26 12:30:00

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