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Adaptar as obras de Junji Ito sempre foi um dos maiores desafios do terror audiovisual. Não basta reproduzir as imagens grotescas: é preciso capturar a forma como suas histórias desmontam pessoas comuns por meio de obsessão, amor, vaidade e compulsão até mergulharem no pesadelo. Após o desastre que foi a adaptação em anime de Uzumaki no Adult Swim, a criatividade de Ito precisava de um recomeço. Agora, com base na estreia do primeiro episódio na Anime Expo 2026, a série live-action Junji Ito: Strange parece ter encontrado a fórmula certa — mas não na forma de um anime.
A antologia live-action estreou seu episódio de abertura na Anime Expo de 2026, antes da estreia oficial no bloco Drama 24 da TV Tokyo. A série adapta 13 dos contos mais celebrados de Ito em episódios independentes, incluindo Lovesickness, Face Thief, Penpal, The Rib Woman e outros. Os roteiristas são Daisuke Hosaka e Tatsuro Inamoto, enquanto três diretores veteranos do terror japonês comandam episódios específicos: Atsuhiro Yamada, Yuta Shimotsu e Ryota Kondo. Cada um traz sua própria marca de terror para a tela. Yamada é conhecido por seu desconforto sinistro, especialmente nas dinâmicas entre personagens, como em seu aclamado thriller Awake. Já Kondo e Shimotsu são mais reconhecidos pelo terror espiritual e psicológico e pelo horror cósmico e surreal, respectivamente.
Após assistir ao primeiro episódio, o que mais impressiona é como Junji Ito: Strange abraça com confiança todas as facetas da narrativa de Ito. O terror é inegavelmente eficaz, construindo lentamente uma atmosfera de pavor crescente por meio de uma história centrada em obsessão e amor que se transforma em algo profundamente perturbador. Em vez de depender de sustos ou gore excessivo, o episódio deixa a tensão ferver até que cada interação pareça um pouco errada. Fãs de Silent Hill sentirão aquela vibração graças ao uso eficaz da névoa, que eleva a tensão.
Talvez mais surpreendente seja o quanto a série é engraçada. Leitores antigos sabem que o trabalho de Ito sempre teve um senso de humor peculiar, quase deadpan, e a série sabiamente abraça esse absurdo em vez de suavizá-lo. Os personagens reagem a situações cada vez mais impossíveis com total sinceridade, criando um fascinante vai-e-vem entre o riso desconfortável e a tensão genuína. É um equilíbrio tonal incômodo, mas que soa inconfundivelmente fiel à voz de Ito.
A produção de Junji Ito: Strange é ainda elevada por um elenco forte, cujas atuações mantêm os eventos cada vez mais surreais emocionalmente ancorados. Mesmo quando a história mergulha no grotesco, os atores vendem com maestria os riscos emocionais, fazendo o horror parecer pessoal, e não apenas chocante.
Embora os mangás de Junji Ito tenham inspirado diversos filmes live-action ao longo dos anos — incluindo várias adaptações de Tomie —, Junji Ito: Strange marca a primeira grande antologia televisiva live-action inteiramente dedicada aos seus contos. Se a qualidade do episódio de abertura for um indicativo, a série pode se tornar uma das adaptações mais fortes de sua obra até hoje. Mesmo com apenas um episódio, ela prova entender exatamente o que torna Junji Ito único: suas histórias não visam apenas aterrorizar com sustos, mas convidam o público a rir nervosamente do absurdo antes de puxar o tapete. Junji Ito: Strange captura esse equilíbrio perturbador de forma notável, mas resta saber se os outros 12 episódios conseguirão entregar o mesmo nível de pavor que as histórias de Ito merecem.
A série estreia oficialmente hoje no Japão, mas ainda não há previsão de lançamento nos Estados Unidos. Quando a notícia chegar, quem se queimou com o anime de Uzumaki deve marcar no calendário.
Leia mais aqui em inglês: https://www.polygon.com/junji-ito-strange-finally-captures-the-horror-masters-unsettling-mix-of-terror-and-dark-comedy/.
Fonte: Polygon.
2026-07-04 17:00:00








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